Coreia do Norte de Kim Jong-un continua a realizar testes de mísseis balísticos e isso deve preocupar o Ocidente

Diversos analistas garantem que as forças militares norte-coreanas estão a planear o seu sétimo teste nuclear para alegar que adquiriu capacidade de produzir uma ogiva nuclear pequena o suficiente para entrar nesses mísseis

Francisco Laranjeira

A Coreia do Norte ‘festejou’, a Coreia do Sul garantiu ter sido uma falsificação. Dias depois do regime de Kim Jong-un ter afirmado que realizou um teste com sucesso do seu maior míssil balístico intercontinental (ICBM), os vizinhos do sul torcem o nariz: o ‘míssil monstruoso’ era, segundo as forças militares sul-coreanas, um Hwasong-15, um projétil melhor testado anteriormente em 2017, a última vez que Pyongyang disparou mísseis potencialmente capazes de atingir qualquer local do continente americano.

O lançamento da última semana, celebrado com um vídeo de relações públicas que exibiu o ditador norte-coreano num casaco de cabedal e óculos de aviador, ao verdadeiro estilo ‘Top Gun’, mesmo não tendo sido o esperado Hwasong-17 mais poderoso, as forças militares rivais concordaram que o míssil voou mais longe e mais alto do que qualquer outro na história dos testes de mísseis de Pyongyang. O momento não é isento de significado: a atenção americana está centrada na Ucrânia pelo que o teste foi uma ‘lembrança’ de que o desenvolvimento de mísseis balísticos e armas nucleares da Coreia do Norte continua e a uma velocidade alarmante. “Pyongyang pode ter pensado que era seguro testar armas mais provocativas sem sanções enquanto Washington e o mundo estão preocupados com a Ucrânia”, frisou Duyeon Kim, membro sénior adjunto do ‘Center for a New American Security’ em Washington, em declarações citadas pelo jornal britânico ‘The Guardian’.

“A Coreia do Norte geralmente tem múltiplos objetivos para cada ação. Pode estar a preparar-se para uma aliança mais forte entre os EUA e a Coreia do Sul, após a vitória de Yoob Suk-yeol nas eleições presidenciais enquanto avança com planos preexistentes de fabricar armas nucleares de alta tecnologia, conforme preconizado por Kim Jong-un. Pode igualmente ter servido para mascaras qualquer fraqueza interna através de demonstrações de força diante do povo norte-coreano”, apontou o analista.

Apesar dos relatos que apontam que um Hwasong-17 explodiu no ar sobre Pyongyang em meados de março, à vista dos moradores da capital, todos os lançamentos significativos de mísseis são parcialmente destinados ao público doméstico. Enquanto o país luta contra a escassez de alimentos e tenta recuperar o comércio transfronteiriço com a China, arruinado devido aos dois anos de restrições da pandemia da Covid-19, Kim Jong-un costuma usar os testes como uma oportunidade de demonizar os EUA e reforçar a crença entre os 25 milhões de habitantes do país de que a maior ameaça não é a pobre alimentação mas os “imperialistas” do outro lado do Pacífico.

Apesar do pouco interesse de Joe Biden na Coreia do Norte, na realidade já se pode apontar um inventário norte-coreano cada vez mais impressionante de armamento, desde supostos mísseis hipersónicos e mísseis de combustível sólido menores, de curto alcance, destinados à Coreia de Sul, como um incentivo para que não se perca a Coreia do Norte de vista. Diversos analistas garantem que as forças militares norte-coreanas estão a planear o seu sétimo teste nuclear para alegar que adquiriu capacidade de produzir uma ogiva nuclear pequena o suficiente para entrar nesses mísseis.

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O cálculo diplomático da Coreia do Norte é o mesmo de quando Kim assinou um acordo ‘nebuloso’ para “desnuclearizar” a península coreana com Donald Trump, em junho de 2018, embora muitos analistas duvidem que o ditador norte-coreano tenha intenção de abrir mão do seu principal trunfo: a dissuasão militar é a moeda de troca mais poderosa que dispõe.

O objetivo de Pyongyang parece ser igualmente uma tentativa de fortalecer a sua influência para que possa transformar as negociações de desnuclearização em negociações de redução nuclear em troca de ajuda económica. “A mensagem norte-coreana do lançamento do ICBM é clara: a Coreia do Norte continuará a desenvolver o seu arsenal nuclear”, garantiu Rachel Minyoung Lee no programa ’38 North’, com sede em Washington.

“Acho que a Coreia do Norte vai aproveitar esta oportunidade para continuar as suas provocações militares como forma de obter algo dos EUA e da China”, acrescentou Hyun-Wook Kim, professor e diretor-geral da Academia Diplomática Nacional da Coreia do Sul.

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