Fãs de Elvis, criadoras de galinhas e divididas entre Hitler e Comunismo: Assim eram as irmãs Mitford, as Kardashians do século XX

“A minha mulher é normal, eu sou normal, mas as nossas filhas são cada uma mais louca que a outra”, comentou uma vez o pai das irmãs Mitford.

Pedro Zagacho Gonçalves

São alvo de um verdadeiro sucesso de vendas de livros em formato ‘reality-show’, já que as histórias destas seis irmãs, que constam num livro de memórias, são dignas de uma família como as Kardashians, só que numa versão século XX. São as irmãs Mitford: Nancy, Pamela, Diana, Unity, Jessica e Deborah.
Ao pé destas excêntricas irmãs da aristocracia britânica, nascidas entre 1904 e 1920, é provável que as cinco temporadas de The Crown, da Netflix, lhe deem sono ou o deixem entediado.

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As memórias de Deborah, Duquesa de Cavendish, de nome ‘Espera por Mim!’, publicadas em 2010, macaram o capítulo final de várias publicações feitas pelas irmãs, que agora voltam a ganhar tração e estão, assim como as histórias da família Mitford, a ser adaptadas ao pequeno e grande ecrã.

Por exemplo, ‘The Pursuit of Love’, de 2021, série inglesa dirigida por Emily Mortimer, revelou-se um sucesso de audiências e foi amplamente aclamada pela crítica. É baseada no primeiro romance de Nancy Mitford, a mais velha das irmãs. Mas já há outra série sobre as Mitford, que se chamará ‘Outrageous’ (Escandalosas). Isto já depois de diversos escritores, incluindo Jean d’Ormesson ou Jessica Fellowes, as terem usado já como ‘musas’ ou inspiração para romances.

O pai das irmãs, O Barão de Rodesdale, não era propriamente um intelectual da época, até porque se vangloriava de, em toda a vida, apenas ter lido um livro. Pode-se dizer que a peculiaridade das Mitford seria herdada daqui, mas parece que foi só o ponto de partida. Tom, o único filho da família, que acabou por morrer na guerra, foi o único a ser educado fora da mansão da família aristocrata.

Todas as irmãs foram educadas da mesma forma: pelas governantas, estudaram também francês e aprenderam equitação. Mas todas eram muito diferentes. “A minha mulher é normal, eu sou normal, mas as nossas filhas são cada uma mais louca que a outra”, comentou uma vez o pai das irmãs Mitford.

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Deborah, conhecida por ‘Debo’, levou uma vida mais próxima do que seria uma vida de duquesa, casou com Andrew Cavendish, político inglês, mas não deixava de ter um lado de ‘louca’: não é à toa que aparecia muitas vezes acompanhada de um grande grupo de galinhas. Recorda a irmã, Jessica que Debo, em criança “passava horas calada dentro da capoeira a tentar imitar com precisão a expressão de concentração de uma galinha quando está a pôr um ovo”.

Debo e o marido eram amigos de John F. Kennedy, isto porque Cavendish era cunhado de Kathleen Kenedy, tanto que os dois foram ao funeral do antigo presidente dos EUA, após ter sido assassinado.

Pam era mais discreta, mas acabou por ser a que mais polémica gerou: depois de casar com um físico milionário, assumiu-se como lésbica e fugiu para o campo com a professora de equitação Giuditta Tommasi.

Jessica, por outro lado, era a irmã reivindicativa e ativista. Aos 17 anos fugiu para Espanha para defender a República com o sobrinho de Churschill, Esmond Romilly, depois juntou-se ao Partido Comunista e ainda lutou pelos direitos civis nos EUA.

Já Unity, tinha visões políticas muito distintas da irmã: era fã de Hitler, tanto que deu um tiro em si própria quando a Alemanha declarou guerra ao Reino Unido. Sobreviveu, mas viveu o resto da vida com a bala alojada, e movimento condicionada.

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Debo teve oportunidade de tomar um chá com Hitler, mas não terá ficado impressionada com o líder nazi alemão. Por outro lado, era obcecada por Elvis, colecionando acessórios do rei do Rock, álbuns, figuras e material promocional.

O amor por Elvis era quase tão grande como o que tinha pelas galinhas, que as irmãs também partilhavam. Por vezes diziam-se “gémeas idênticas”, mas eram mais as diferenças do que as parecenças entre elas.

A correspondência entre as seis irmãs, publicada há alguns anos, deixa a descoberto que apesar das diferenças, tentavam sempre aproximar-se umas das outras. “Para ela manda todo o meu amor. Para o Hitler, todo o meu ódio”, escrevia com humor Jessica para Unity, em 1935.

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