O fim de semana foi tenso entre Putin e os aliados da Rússia: se antes o presidente russo clamava vitória com a anexação das regiões ucranianas de Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporíjia, a perda da cidade estratégica de Lyman valeu a Putin críticas de Ramzan Kadyrov, líder da Chechénia, que sugeriu que a Rússia devia considerar o uso de “armas nucleares de baixa potência” como retaliação pela perda de território para as forças ucranianas.
O ‘desafio’ deixa a comunidade internacional em alerta. O Kremlin respondeu depois, fazendo valer-se da doutrina nuclear russa, que explicita que as armas nucleares podem ser usadas em dois casos: se houver uma agressão contra a Rússia ou qualquer um dos seus aliados com armas de destruição maciça, ou “caso se verifique uma ameaça à existência do próprio Estado” russo.
Um estado que tem reivindicado territórios como seus perante os clamores de “ilegalidade” do Ocidente, que se seguiram aos de “crimes de guerra” perante os horrores descobertos em valas comuns, aquando da reconquista de territórios pela Ucrânia. Um estado que, se por um lado ameaça com armas nucleares e que, esta segunda-feira, votava na Duma a adesão à Rússia dos territórios anexados, por outro lado admite no mesmo dia que não sabe que partes de Kherson e Zaporíjia passam a fazer parte do país, face aos avanços das tropas ucranianas nas linhas de combate.
Analistas de guerra ouvidos pelo El Mundo, admitem que o risco de escalada do conflito para o uso de armas nucleares é relativamente baixo, mas tem tendência a crescer, cada vez que Putin se vê com menos saídas para uma vitória, que não envolvam uma guerra nuclear.
Também a Rússia e a NATO têm mantido o conflito dentro do território ucraniano, mas aumenta a pressão sobre Putin para atacar os países da Aliança que têm ajudado a Ucrânia e garantido o fornecimento de bens essenciais e armas. Uma pressão que só aumenta a cada dia que dura a guerra.
São apontados pelos especialistas do FRS, um ‘think thank’ francês de discussão de temas de defesa nacional e estratégia, quatro cenários possíveis ara uma guerra nuclear na Ucrânia:
Detonação longínqua – O menos arriscado seria a Rússia optar por uma detonação subterrânea no Mar Negro. Sem vítimas, mostraria a ‘vontade’ russa de passar o conflito para o plano nuclear. Seria previsível, já que as armas nucleares teriam que ser transportadas dos armazéns onde estão guardadas, e depois acopladas aos mísseis que as compõem. A União Europeia (UE) acompanharia os desenvolvimentos e reagiria, primeiro com avisos a Moscovo, depois divulgando todas as movimentações que antecipariam a detonação. Poderia, aponta Eric Schlosser, autor de ‘Armas Nucleares, o acidente de Damasco e a ilusão de segurança’, dar-se o cenário da UE lançar um ataque cibernético aos sistemas russos antes de se dar a detonação.
Massacrar um batalhão ucraniano – Seria a opção com um efeito mais imediato no campo de batalha: o ataque nuclear contra um alvo militar ucraniano, como uma base aérea ou um batalhão. Significaria a morte de poucos civis, mas com muitas baixas militares. Lançaria o medo e o pânico, deixaria uma zona contaminada e abriria a possibilidade a novo ataque.
Ataque cirúrgico – O cenário mais difícil de acontecer e que já foi o que se tentou com o cerco a Kiev, nos primeiros meses da guerra: fazer cair o governo ucraniano. Neste caso, um ataque nuclear com o único objetivo de matar o presidente Volodymyr Zelensky e os que com ele se escondem nos bunkers subterrâneos.
Hiroshima n.º2 – O pior cenário possível: a destruição massiva de uma grande cidade ucraniana, como Dnipro ou Vinitisia. O objetivo seria massacrar grande número de civis e levar a Ucrânia a um estado de terror que resultasse na rendição. Difícil de imaginar para muitos, mas não para Putin, que já chegou a recordar no seu discurso da passada sexta-feira que os EUA “abriram um precedente” ao usar armas nucleares em 1945, para por fim à II Guerra Mundial. Causaria choque global e forte retaliação, mas significaria que a China, cuja doutrina nuclear estabelece “não ser o primeiro a usar armas nucleares”, se afastaria de Moscovo e Putin perderia um dos seus principais (e raros) aliados.





