Dois piratas informáticos, alegadamente sob ordens dos Emirados Árabes Unidos, terão utilizado um serviço de spyware (software utilizado para desvio de dados e espionagem), vendido por uma empresa de inteligência privada israelita, com o intuito de espiar os telemóveis de dezenas de jornalistas do canal árabe Al Jazeera, segundo noticia o diário britânico The Guardian.
A investigação foi levada a cabo por informáticos do Citizen Lab (CL) da Universidade de Toronto, que detetaram um código malicioso, trabalhado pela empresa informática NSO Israel, com forte capacidade de invadir o software de iphones cujo sistema operativo seja anterior ao iOS 14 da Apple.
O NSO Group, que conta já com diversas acusações de espionagem às ordens da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, já emitiu um comunicado, onde afirma que o seu software “é feito apenas para ser usado por clientes do governo para encontrar terroristas e criminosos”, afirmando “não entender”, por isso, o seu envolvimento neste caso.
Segundo as alegações do Citizen Lab, o spyware da NSO Group tem sido nos últimos tempos um instrumento de violação de direitos humanos ao serviço dos clientes do grupo, incluindo jornalistas em Marrocos, dissidentes políticos do Ruanda e até casos que envolvem telemóveis de políticos em Espanha.
Nestes últimos casos, o spyware do NSO Group teria sido usado para obter informações para acesso às mensagens dos utilizadores através da aplicação WhatsApp. O Whatsapp já processou a empresa num tribunal dos EUA.
Confrontada pelo relatório do Citizen Lab, a empresa americana de software e hardware Apple reagiu através de comunicado: “Pedimos sempre aos clientes que façam download dos softwares mais recentes para poderem proteger-se a si e aos seus dados”, refere o documento.
O alegado ataque aos jornalistas da rede Al Jazeera foi descoberto depois de um conhecido repórter, Tamer Almisshal, ter notado um comportamento anormal no seu telemóvel, solicitando apoio técnico.
O CL descobriu que, apesar de Almisshal nunca ter clicado em algum link suspeito, o seu telemóvel acabou por se conectar a um servidor NSO. Segundos depois, os investigadores encontraram evidências técnicas de que o telefone de Almisshal fora infiltrado. Além do de Almisshal foram ainda identificados 36 telefones pessoais dentro da Al Jazeera sujeitos a ataque informático.
Dois dos operadores da NSO foram acusados de crime de violação de privacidade e, segundo os investigadores, estariam às ordens do governo dos Emirados Árabes Unidos.
Em 2019, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Egito exigiram que o Qatar encerrasse a Al Jazeera como parte da sua lista de condições para ser levantado o bloqueio diplomático e económico, imposto em junho de 2017.




