2023 o ano do morcego

Os morcegos são mamíferos bem adaptáveis e enquanto uns vivem numa caverna, outros vivem num centro urbano. Um pouco à semelhança do ano de 2023. Com previsões macroeconómicas difíceis para o espaço Europeu e mundial. 

André Manuel Mendes

Os morcegos são mamíferos bem adaptáveis e enquanto uns vivem numa caverna, outros vivem num centro urbano. Um pouco à semelhança do ano de 2023. Com previsões macroeconómicas difíceis para o espaço Europeu e mundial.

Para Portugal, Bruxelas corta nas previsões de crescimento para 0,7% (baixo mas ainda acima da média da Zona Euro), afetada pelos efeitos da guerra na Ucrânia e a forte subida dos preços, sobretudo da energia. A inflação deverá continuar a ser elevada (abaixo da média da zona euro) e com um défice de 1,1% do PIB. O crescimento do PIB português será somente 0,7%, com uma redução da dívida pública para 109,1% do PIB em 2023 (as dívidas públicas da Zona Euro serão de 92,3% do PIB). A taxa de desemprego vai manter-se estável em 5,9%. Ou seja um cenário macroeconómico difícil, em que a inflação terá um efeito negativo (baixa do poder de compra pois os salários em 93% das empresas não acompanharão a inflação; a maioria dos aumentos nem chegará aos 5%) e um efeito positivo (redução da dívida pública). Mas com uma taxa de desemprego controlada num cenário de crescimento baixo. Confirmado por um estudo da Hays, em que a ideia das empresas portuguesas (82%) é continuar a contratar.



Mas 2023 será um ano de mudança, o que o torna mais difícil. Será um ano bom para quem vive de noite e dorme de cabeça para baixo como o morcego. O ano da continuidade da morte da globalização. O novo conceito de ordem geoestratégica mundial será a Blocalização que contém 3 princípios básicos de construção, ou seja, é: “nearshore + friendshore + multishore”.  A identificação ideológica de princípios ESG está a criar blocos homogéneos e coesos. Não se trata de democracia vs autocracia, mas de respeito pelo direito e ordem internacional vs os que não respeitam.

Do global voamos para o blocal, do “offshore” para a produção “nearshore”, reduzindo os custos dos riscos logísticos, mas também a criação de parcerias blocais (por bloco) e de alianças de “friendly countries” em lugar dos acordos globais gerais de adesão e cumprimento de regras.  Mas temos de escolher muito bem os “friendshore” para cada bloco e ter sempre a alternativa dentro do bloco, para a produção de produtos e bens essenciais (“multishore”). Ou seja, um backup (que não temos atualmente), como vemos, por exemplo, com os cereais cujo monopólio é essencialmente ucraniano e russo. Trata-se de ter dentro dos blocos várias alternativas para não cometer o mesmo erro de ficar dependente do fornecimento de bens essenciais por apenas um pais. As economias de escala devem ser ganhas dentro dos blocos. As regras e acordos de cada bloco devem ser rígidas quer no acesso, quer na exclusão, pois os princípios têm de ser comuns.

A autossustentabilidade de cada bloco ao nível da autonomia energética descarbonizada, desenvolvimento digital, de inovação tecnológica e criação de um sistema alimentar tecnologicamente inteligente e circular será crucial. Obviamente algumas organizações atualmente supranacionais passarão a suprablocais, como a ONU. A Blocalização militar e defesa comum será uma realidade.

Em suma, a nova ordem mundial blocal com a morte da globalização traz inúmeros desafios e oportunidades com os quais temos de aprender a viver.

Quanto á manutenção e atração do talento, nalgumas áreas de negócio, continuará a ser um fator crítico de sucesso. Com a evidência de que o trabalho remoto baixa a produtividade das empresas, pelo que a nova ordem será o “individualismo corporativo” em que a empresa adapta os modelos de trabalho a cada segmento de colaboradores, em benefício de ambos. Por outro lado, existirá uma revolução no desenvolvimento de competências. A Auto (e não apenas hetero) motivação será fundamental. As pessoas terão várias carreiras, em que a “aprendizagem ao longo da vida” ou as “competências fluídas” (Liquid Skills) serão cruciais para reforçar a sua empregabilidade.

O aumento dos custos logísticos, de algumas matérias primas e também a especulação de alguns produtores, farão com que alguns produtos mais baratos (como medicamentos) saiam do mercado por inviabilidade económica, sendo trocados por alternativas mais caras.

A China será a nova Rússia, pelo que o confronto económico entre o bloco Americano e Europeu será mais um desafio para o crescimento mundial. Embora a guerra na Ucrânia esteja para durar, assim como os seus efeitos nefastos.

A nível tecnológico, a Inteligência Artificial vai potenciar a transformação dos dados em informação de forma muito mais rápida, a “cloud” criará modelos de escala otimizados, o metaverso vai criar um novo mundo digital e uma nova forma de viver, o blockchain permitirá continuar a criar uma nova moeda digital. Mas apenas 30% dos trabalhadores podem ser substituídos por máquinas pelo que a realidade será de adaptação e não substituição. As Funções serão mais complexas e menos mecânicas, como a resolução de problemas com as novas tecnologias. Pelo que se necessita de uma forte literacia tecnológica que deve ser impulsionada pelas empresas. No entanto a cibersegurança reforçará o seu papel de fator crítico de sucesso.

As organizações precisam também de recomeçar a suportar a educação dos colaboradores pois o valor da educação formal já não reside na aquisição de conhecimentos, mas no desenvolvimento de uma capacidade de aprendizagem (learning organizations).

A pegada carbónica continuará a impulsionar a transição da economia e Portugal estará numa posição privilegiada para beneficiar deste novo paradigma pois está bastante à frente de várias economias no campo renovável, no desenvolvimento da economia circular e mesmo no advento do hidrogénio como recurso energético.

A implementação do PRR e do 2030, apesar da sua gigante alocação ao setor público, pode ser uma alavanca de crescimento económico, nomeadamente de economia inovadora. No entanto, dada a pequena dimensão do país, a falta de coopetitividade (cooperação na competitividade) entre as empresas do mesmo sector, o baixo nível de literacia dos líderes, a burocracia pública, a falta de disciplina organizacional, os baixos salários e a dependência extrema do estado, pode não potenciar ao máximo estes mecanismos.

Finalmente as taxas de juro subirão mais alguns pontos, encarecendo o valor do dinheiro como forma de controlar a inflação. Mas esta medida já se está a mostrar ineficiente. Para além desta, os estados irão perceber que a única maneira de controlar a escalada de preços é reforçar a criação de empresas, aumentar a oferta e concorrência, obrigando os precisava baixar por causa oferta e da procura. Portanto o estímulo económico será tão importante como a subida das taxas de juro e empobrecimento das pessoas.

Portanto face a tudo isto, 2023 será o ano do morcego: difícil, volátil, instável, complexo e ambíguo (VUCA), nomeadamente para uma economia pequena e periférica como Portugal. Apenas uma liderança POLCI e uma visão rigorosa da organização permitirá viver como o morcego, “de cabeça para baixo” e em qualquer ambiente!

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