Por Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros
Foi notícia recente dos media o facto de a UE ter estabelecido que a instalação de caldeiras a gás venha a ser proibida em edifícios novos antes do fim desta década, segundo uma diretiva sobre a eficiência energética. É também pretendido ainda que os países europeus promovam a eliminação gradual da utilização de sistemas de aquecimento com recurso a combustíveis fósseis em todos edifícios nos anos seguintes. Assim sendo, terão que ser consideradas outras alternativas, entre as quais as caldeiras a biomassa.
Como é sabido a UE tem, por motivos diversos ligados à emergência climática e à guerra na Ucrânia, tomado medidas para acelerar a transição energética. Uma das mais importantes ferramentas será a promoção da eficiência energéticas, nomeadamente no que se refere aos edifícios, grandes consumidores de energia.
Segundo a Agência Internacional de Energia, os sistemas de aquecimento são responsáveis por 10% do total das emissões de dióxido de carbono a nível global. É sabido que os edifícios representam 40% do consumo de energia final e 36 % das emissões de gases com efeito de estufa relacionadas com a energia na UE, ao passo que 75 % dos edifícios da UE ainda são ineficientes do ponto de vista energético. A nível europeu o gás natural desempenha o papel mais relevante no aquecimento dos edifícios, representando cerca de 42 % da energia utilizada para o aquecimento de espaços no setor residencial. O gradual “afastamento” das caldeiras a combustíveis fósseis que tem como objetivo tornar a UE independente desses recursos terá, num primeiro momento, vantagens como uma maior aposta em energias renováveis e no desenvolvimento de novas tecnologias que promovam a eficiência no domínio do aquecimento.
No entanto, há riscos relacionados com esta mudança, como, por exemplo, os relacionados com a pobreza energética devido à ausência de capacidade económica para renovar os sistemas de aquecimento. Por isso estas alterações têm de ser quantificadas ao nível da sua viabilidade, sustentabilidade energética e das consequências económicas.
Criam-se deste modo oportunidades para as alternativas de sistemas de aquecimento, entre as quais, será de destacar o caso das caldeiras a biomassa sólida (lenha, estilha, briquetes, péletes). E porquê destacar esta e não outras? Pelas especiais características do sistema envolvido, desde os equipamentos usados, ao tipo de biomassa utilizada, que em Portugal têm produtores e com grande incorporação nacional e também pelos custos equiparados.
Existem em Portugal várias fábricas de péletes, com uma produção anual de várias centenas de milhares de toneladas deste biocombustível assente essencialmente na utilização de biomassa florestal residual, num país em que a floresta tem grande importância. Muita dessa produção é para exportação, mas poderá vir a garantir o abastecimento a nível nacional e o uso dos péletes geograficamente mais próximo da produção, em consonância com as melhores regras e necessidades ambientais.
Assim, se quisermos ter um sistema de aquecimento tecnicamente adequado, comparativamente acessível e com base renovável, poderemos recorrer à utilização de equipamentos que usam como combustível, por exemplo, lenha/briquetes ou péletes, contribuindo para as metas estabelecidas, otimizando a utilização destes combustíveis renováveis nacionais e mesmo equipamentos de base nacional, desenvolvendo a economia nacional. Esta pode vir a ser, assim, uma nova oportunidade para a biomassa sólida.




