Sobretudo desde a segunda metade do século passado, o pensamento económico dominante repetiu uma história confortável: indivíduos encontram‑se nos mercados, os preços ajustam‑se, e incentivos privados transformam-se, como por magia, num bem colectivo. A magia, isto é, a mão, de invisível não tem nada: é cada um a perseguir o seu próprio interesse e nada mais.
A metáfora de Adam Smith, que além da Riqueza das Nações escreveu igualmente a Teoria dos Sentimentos Morais, tornou‑se, desde há cerca de 80 anos a esta parte, uma construção teórica rígida — em que o egoísmo passou a ser tratado como a natureza humana universal.
Contudo, a evidência recente oriunda da denominada Economia Comportamental, que mais não é do que a reincorporação, após uma cisma no alvor do século XX, da psicologia social e da sociologia na teoria económica, conta uma história diferente.
Vários estudos mostram que apenas uma minoria, cerca de 30% dos indivíduos, se comporta de modo consistente com o modelo de preferências puramente egoístas assumido pela economia clássica e neoclássica. A maioria revela preferências sociais, isto é, valoriza não só os rendimentos próprios, mas (des)valoriza também os dos outros, revelando aversão à desigualdade, altruísmo, reciprocidade ou justiça meritocrática, assim como inveja ou cobiça.
Ou seja, o agente egoísta — não no sentido moralista do termo, mas no sentido de um agente que não incorpora na sua utilidade os rendimentos de terceiros, nem positiva nem negativamente — não é a regra, mas antes um caso particular. Mas tal pressuposto grosseiro não impediu que se tivesse construído (e se continue a construir) um mundo inteiro assumindo que essa minoria representava toda a humanidade, o tal homo economicus.
Ora, quando reconhecemos um espectro mais amplo — realista, de senso-comum — para os motivos humanos, é difícil não concluirmos o seguinte: cada transacção económica é também uma negociação sobre a distribuição dos recursos. Porque os indivíduos não perguntam apenas “quanto é que eu ganho com isto?”, perguntam também “isto é justo?”, “quem beneficia mais?”, “qual foi o contributo de cada um?”, “que mensagem envio se aceitar — ou rejeitar — esta proposta que me estão a fazer?”. Longe do vazio moral descrito nos manuais escolares existentes até há bem pouco tempo, o comportamento no tear de fios entrelaçados que é o mercado está impregnado de juízos sobre justiça.
Reconhecê-lo faz diferença. Porque quando economistas insistem que só o auto‑interesse move as pessoas, conseguem apresentar qualquer resultado de mercado como neutro, natural e fora do alcance de qualquer escrutínio que não o da eficiência, excluindo, por exemplo, a dimensão ética ou moral. Deliberada ou inadvertidamente, esta premissa serve uma agenda política: se todos são egoístas (no sentido já mencionado) e indiferentes à justiça, então a desigualdade reflecte apenas eficiência e escolhas individuais, e ninguém é responsável — nem tem que responder — por isso. Como consequência, a redistribuição é senão uma distorção.
Mas a maioria dos indivíduos preocupa‑se com justiça, rejeita ofertas injustas, resiste a cortes salariais, recompensa a generosidade e distingue o merecido do imerecido. Mesmo os libertários, que enfatizam o mérito, detêm um ideal de equidade.
Reconhecer isto não enfraquece a teoria económica, nem os mercados nem a economia. Pelo contrário. Lembra‑nos que as economias são sistemas morais, moldados por juízos humanos sobre o que é merecido, aceitável ou legítimo. E uma vez visto o mercado como uma questão distributiva, a redistribuição deixa de lhe ser contrária — como deixa de ser igualmente a discussão sobre a propriedade dos meios de produção, ou pré-distribuição.
Uma vez aceitando as coisas como elas são, a mão invisível deixa de parecer mística. E um outro mundo passa a ser possível.




