UE dá novo fôlego a exército europeu devido a tensões com Trump: seriam necessários 100 mil soldados

Comissário europeu da Defesa, Andrius Kubilius, considera que a UE precisaria de cerca de 100 mil soldados para responder de forma unificada aos desafios globais

Francisco Laranjeira
Janeiro 12, 2026
12:50

O agravamento das tensões entre a União Europeia e os EUA em torno da Gronelândia voltou a colocar no centro do debate político a criação de um exército europeu. A ideia foi recentemente defendida pelo comissário europeu da Defesa, Andrius Kubilius, que considera que a UE precisaria de cerca de 100 mil soldados para responder de forma unificada aos desafios globais.

Numa intervenção numa conferência de segurança na Suécia, Kubilius, segundo a publicação ’20Minutos’, recorreu a uma comparação direta com o modelo americano, questionando se os EUA seriam mais fortes “com 50 exércitos estaduais em vez de um único exército federal”. A analogia serviu para sublinhar as fragilidades da atual arquitetura de Defesa europeia, assente em 27 políticas e orçamentos nacionais distintos.

Uma ideia antiga com novo impulso

A criação de um exército europeu não é nova e tem sido, ao longo das últimas décadas, um tema recorrente em Bruxelas, embora sempre encarado como politicamente difícil de concretizar. Até agora, a aposta da UE tem passado sobretudo pelo reforço da cooperação entre forças armadas nacionais, incluindo iniciativas como o chamado Schengen Militar, destinado a facilitar a circulação de tropas através das fronteiras europeias em tempos de paz ou de conflito.

No entanto, o contexto internacional e, em particular, o diferendo em torno da Gronelândia, território autónomo da Dinamarca, parecem ter dado novo fôlego a este debate. Kubilius defendeu que o objetivo imediato não passa ainda pela criação formal de um exército único, mas por “trabalhar melhor e de forma mais estreita em conjunto”, uma fórmula já utilizada por responsáveis europeus em anos anteriores.

NATO, divisões internas e mudança de paradigma

O comissário europeu sublinhou que o episódio da Gronelândia não é um caso isolado, recordando que a história da NATO inclui outros momentos de tensão entre aliados. O apelo à constituição de uma força europeia de grande dimensão já tinha sido feito há mais de uma década por líderes como Emmanuel Macron e Angela Merkel, mas nunca avançou para além do plano político.

Para Kubilius, a União Europeia deve começar a investir de forma coordenada, de modo a poder “combater como Europa e não apenas como uma coleção de exércitos nacionais”. Essa mudança exigiria, na sua perspetiva, uma transformação profunda da política de defesa europeia.

Reino Unido e governação da defesa europeia

O responsável europeu defende ainda que qualquer nova arquitetura de defesa deverá incluir o Reino Unido, apesar de este já não integrar a União Europeia. Uma das hipóteses em cima da mesa passa pela criação de um Conselho de Segurança Europeu, com membros permanentes e rotativos, envolvendo chefes de Estado e de Governo, bem como os presidentes da Comissão Europeia e do Conselho Europeu.

Segundo Kubilius, este órgão não deveria limitar-se à troca de opiniões, mas assumir capacidade efetiva de decisão. O comissário considera essencial que a UE esteja preparada para diferentes cenários, incluindo o reforço de um pilar europeu dentro da NATO ou, em última instância, uma eventual retirada de bases americanas da Europa.

Opinião pública mais recetiva

Dados de uma sondagem do ‘POLITICO’, citados pelo próprio comissário, indicam que em países como Espanha, Bélgica e Alemanha cerca de 70% dos cidadãos preferem que a defesa seja assegurada por um exército europeu, em detrimento de forças nacionais ou da própria NATO. Para Kubilius, estes números demonstram que existe margem política para discutir todas as opções, num momento em que o debate sobre a autonomia estratégica europeia ganha novo peso, de acordo com o 20Minutos.

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