UE arrasada por subsidiar carne que é 580 vezes mais poluente do que leguminosas

A União Europeia está a ser alvo de fortes críticas depois de um novo estudo revelar que alimentos com elevado impacto climático, como a carne de vaca e de borrego, recebem centenas de vezes mais subsídios públicos do que alternativas vegetais como leguminosas.

Pedro Gonçalves
Fevereiro 20, 2026
15:23

A União Europeia está a ser alvo de fortes críticas depois de um novo estudo revelar que alimentos com elevado impacto climático, como a carne de vaca e de borrego, recebem centenas de vezes mais subsídios públicos do que alternativas vegetais como leguminosas. A situação foi classificada como um uso “escandaloso” do dinheiro dos contribuintes europeus e reacendeu o debate sobre a necessidade de reformar urgentemente a política agrícola do bloco.

O relatório, divulgado pela organização Foodrise, analisou a distribuição de apoios da Política Agrícola Comum (PAC) em 2020 e concluiu que a grande maioria dos subsídios foi canalizada para a produção de alimentos de origem animal, apesar do seu impacto desproporcionado nas emissões de gases com efeito de estufa.



De acordo com o estudo, 77% de todos os subsídios da PAC em 2020 — cerca de 39 mil milhões de euros, num total de 51 mil milhões — foram atribuídos à produção de alimentos de origem animal. Em contraste, os alimentos de base vegetal receberam apenas uma fração desse apoio.

Os dados revelam que a carne de vaca e de borrego recebeu cerca de 580 vezes mais subsídios do que leguminosas como lentilhas e feijões. No mesmo ano, os produtos lácteos beneficiaram de 554 vezes mais apoios do que frutos secos e sementes. Considerando em conjunto carne e lacticínios, estes setores receberam mais de dez vezes mais subsídios do que a produção de frutas e legumes.

Alimentos de origem animal dominam emissões, mas não calorias
O relatório sublinha uma discrepância estrutural: os alimentos de origem animal são responsáveis por entre 81% e 86% das emissões de gases com efeito de estufa associadas à produção alimentar na UE, mas fornecem apenas cerca de 32% das calorias e 64% da proteína consumida.

A nível global, a agricultura e o sistema alimentar são responsáveis por um terço das emissões totais de gases com efeito de estufa, ficando apenas atrás da queima de combustíveis fósseis. Segundo a calculadora de pegada carbónica CO2 Everything, uma porção de 100 gramas de carne de vaca equivale a 78,7 quilómetros de condução, libertando 15,5 quilos de CO₂ equivalente.

Agricultura animal intensiva agrava impacto ambiental
O impacto climático da agricultura animal tem aumentado nas últimas décadas, impulsionado por práticas de produção industrial em larga escala e pelo número crescente de animais criados para consumo humano. A Greenpeace estima que 60% de todos os mamíferos do planeta sejam animais de criação, enquanto apenas 4% são selvagens — os restantes 36% são humanos. No caso das aves, cerca de 70% são aves de capoeira criadas para consumo.

Cada animal criado para a indústria alimentar exige grandes quantidades de ração, água e espaço, contribuindo para a expansão de explorações intensivas e para a destruição de ecossistemas naturais capazes de absorver carbono, como florestas, pradarias e zonas húmidas. Diversas investigações têm apontado a desflorestação da Amazónia como sendo impulsionada pela procura de soja.

Contrariamente à perceção comum, essa soja não se destina maioritariamente ao consumo humano. Segundo a WWF, quase 80% da produção mundial de soja é utilizada como ração animal, tendo a sua produção duplicado nas últimas duas décadas.

Ineficiência energética da produção de carne
Outro fator determinante para o impacto ambiental da carne é a ineficiência do sistema. Ao alimentar animais com culturas que poderiam ser consumidas diretamente por humanos, acrescenta-se um passo intermédio altamente dispendioso em termos de recursos.

De acordo com um relatório da organização Compassion in World Farming, por cada 100 calorias de culturas vegetais dadas a animais, obtêm-se apenas 40 calorias em leite, 12 calorias em carne de frango e apenas três calorias em carne de vaca.

Martin Bowman, responsável da Foodrise, foi contundente nas críticas à política europeia. “É escandaloso que uma fatia tão injusta dos subsídios da UE, no valor de milhares de milhões de euros pagos pelos contribuintes, esteja a ser usada para sustentar a produção de carne e lacticínios com elevadas emissões e a distorcer as dietas europeias”, afirmou.

Segundo Bowman, a PAC encontra-se “num ponto de viragem” e os decisores políticos europeus têm uma oportunidade histórica para apoiar uma transição justa para dietas mais saudáveis e sustentáveis, ricas em alimentos de origem vegetal. Essa mudança, defende, poderia aumentar os rendimentos dos agricultores, reduzir a dependência de importações, mitigar as alterações climáticas e melhorar a saúde da população europeia.

“No mínimo, os alimentos de base vegetal merecem uma distribuição mais justa dos subsídios da PAC, para poderem competir em igualdade de condições”, acrescentou. “Este uso vergonhoso de fundos da UE para promover carne e lacticínios — em clara contradição com os objetivos climáticos e de saúde da União — deve terminar imediatamente.”

A Foodrise defende a criação de um Plano de Ação para Alimentos de Base Vegetal, que promova estes produtos ao longo de toda a cadeia de abastecimento e inclua um fundo específico para apoiar os agricultores na transição da pecuária para culturas vegetais.

Em 2024, a Comissão Europeia publicou o relatório Strategic Dialogue on the future of EU agriculture, onde concluiu ser “crucial” ajudar os consumidores a abraçar a transição para alimentos de origem vegetal.

“O executivo europeu deve desenvolver, até 2026, um Plano de Ação da UE para Alimentos de Base Vegetal, de forma a reforçar as cadeias agroalimentares vegetais, desde os agricultores até aos consumidores”, refere o documento.

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