Lítio ucraniano e petróleo do Alasca: Trump prepara oferta polémica a Putin

O objetivo, segundo fontes próximas da Casa Branca citadas pelo The Telegraph, é tentar garantir um cessar-fogo na Ucrânia, numa guerra que já dura mais de três anos e meio.

Pedro Gonçalves
Agosto 14, 2025
14:34

Donald Trump está a preparar um controverso pacote de incentivos económicos para oferecer a Vladimir Putin na reunião marcada para esta sexta-feira, em Anchorage, Alasca. O objetivo, segundo fontes próximas da Casa Branca citadas pelo The Telegraph, é tentar garantir um cessar-fogo na Ucrânia, numa guerra que já dura mais de três anos e meio.

O pacote incluiria acesso da Rússia a minerais de terras raras em territórios ucranianos parcialmente ocupados, a possibilidade de exploração de petróleo e gás no Estreito de Bering, junto à costa do Alasca, e a suspensão de sanções americanas aplicadas à indústria aeronáutica russa.

Segundo o jornal britânico, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, tem trabalhado com Trump para identificar compensações económicas que possam persuadir Moscovo a interromper a invasão da Ucrânia. Entre os pontos centrais, destacam-se as vastas reservas de lítio da Ucrânia, essenciais para a produção de baterias, localizadas em territórios sob ocupação russa.

Além disso, Trump pondera remover restrições à exportação de peças de aviões para a Rússia, cujo setor aeronáutico tem sido fortemente afetado pelas sanções ocidentais, obrigando companhias aéreas russas a desmantelar aeronaves para obter peças de substituição. A medida beneficiaria igualmente fabricantes americanos, como a Boeing, ao mesmo tempo que ofereceria uma tábua de salvação à frota russa.

Outra concessão controversa seria permitir à Rússia explorar petróleo e gás no Estreito de Bering, uma área estimada em possuir 13% das reservas mundiais de petróleo e considerada estratégica para a produção energética no Ártico.

Fontes do governo britânico indicam que aliados europeus poderão tolerar tais incentivos se forem enquadrados como parte de um processo de paz legítimo, e não como recompensa por agressão. O The Telegraph sublinha que qualquer proposta terá de ter em conta a opinião pública.

Caso a reunião no Alasca seja produtiva, está prevista uma segunda ronda de negociações com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. Apesar de satisfeito com o apoio de Trump às garantias de segurança, Zelensky mantém-se cético face às intenções de Putin, descrevendo como “bluff” as declarações do líder russo de que as sanções são ineficazes.

A Casa Branca tem tentado minimizar expectativas, referindo a reunião apenas como um “exercício de auscultação”. Trump afirmou aos jornalistas que saberia “nos primeiros dois minutos” se Putin leva a sério o fim da guerra. Por seu lado, os assessores russos classificaram o encontro como uma discussão sobre as “relações russo-americanas”, com ênfase no reforço do comércio bilateral.

Nos bastidores, alguns conselheiros ponderaram a utilização da ocupação israelita da Cisjordânia como modelo para um eventual acordo, permitindo à Rússia manter controlo militar e económico sobre os territórios ucranianos ocupados, embora não esteja claro até que ponto essa ideia foi desenvolvida.

Para analistas, a simples realização desta reunião já representa uma vitória para Putin, sinalizando o fim do isolamento internacional da Rússia, mesmo perante um mandado de prisão internacional contra o presidente russo.

Alexander Kots, blogger militar pró-Kremlin, afirmou nas redes sociais: “Já ninguém fala sobre o isolamento internacional da Rússia, ou sobre a nossa derrota estratégica. Esta cimeira tem todas as hipóteses de se tornar histórica”.

O analista da CNN Matthew Chance destacou também o simbolismo da localização: “Uma cimeira no estado norte-americano do Alasca, entre todos os lugares, é um prato cheio para os nacionalistas russos ressurgentes que ainda se gabam de que o território é deles por direito”.

Segundo Chance, o facto de Trump estar disposto a negociar territórios ucranianos para terminar a guerra representa um mau sinal para a Ucrânia e uma vitória para Moscovo. “Putin vê com Trump uma oportunidade única para redefinir fundamentalmente as relações com Washington, separando os laços da Rússia com os EUA do destino da Ucrânia, um cenário que poderia dividir os aliados ocidentais”, afirmou.

Críticos alertam que oferecer benefícios económicos inesperados a Moscovo corre o risco de legitimar a conquista territorial. A Casa Branca insiste que o objetivo permanece um “cessar-fogo total e abrangente”, mas admite que alcançar uma resolução duradoura exigirá compromissos difíceis.

Um funcionário da administração disse ao The Telegraph: “Todos concordam que esta guerra tem de chegar ao fim, e é para isso que o presidente está a trabalhar”.

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