Transformação analógica

O mundo tem-se tornado um lugar confuso e parece que tudo aquilo em que acreditávamos está continuamente a ser posto em causa.

Por Luís Paulo Salvado, chairman da Novabase

A coesão e construção da Europa, o reforço das democracias no Mundo, a emergência de uma nova ordem global assente em maior tolerância e coabitação, têm regredido. A crise do euro, os impasses no espaço político europeu com as divisões Norte-Sul e Este-Oeste, o Brexit, ou a eleição de “Trumps” e os “Bolsonaros”, o estado islâmico, novas formas de terrorismo e as imigrações desordenadas são eventos que têm contribuído para esta mesma inflexão.

Os novos populismos e nacionalismos encontram terreno fértil para se reproduzirem. As religiões emergentes do Capitalismo e do Consumismo têm impulsionado a globalização para além da competência regulatória das instituições que assegura(va)m os delicados equilíbrios planetários.

A internet veio acelerar tudo isto ao permitir que biliões de pessoas comuniquem e partilhem informação de forma instantânea, pela primeira vez na história dos seres humanos. A competição aumentou, globalizou-se, e o mundo ficou Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo (VICA/VUCA).

Alguns gigantes empresariais emergentes ameaçam os negócios instalados de uma forma nunca vista. E várias marcas que não existiam há alguns anos estão a criar disrupções avassaladoras em ecossistemas e modelos de negócios estáveis e que prosperaram durante décadas e, em alguns dos casos, séculos.

Como temos reagido a tudo isto? Com muita dificuldade… Ao longo deste processo, muitas pessoas perderam os seus referenciais, não tendo hoje um sistema cognitivo-moral com que possam interpretar de forma satisfatória este novo mundo. Ao nível dos países, mesmo nos sistemas políticos mais avançados, também não se vislumbram ainda respostas credíveis, como atesta a actual crise das democracias ocidentais. Ao nível comunitário, também não se vêem grandes progressos: instituições outrora muito respeitadas como os tribunais/justiça, as igrejas/religiões clássicas, o sistema político/políticos são progressivamente desacreditadas. E, em relação às empresas, o que estão a fazer?

A resposta hoje parece ser: transformação digital! Ironizando, diria mesmo que, quando não sabemos bem qual o problema que precisamos de resolver, a resposta deve estar algures na transformação digital… É certo que a digitalização pode ser uma resposta eficaz para muitos dos desafios do mundo VICA, mas esta é uma resposta superfícial, ou seja, é preciso actuarmos a um nível diferente, muito mais profundo, se quisermos endereçar com sustentabilidade os desafios dos tempos actuais.

AS PESSOAS

O que é necessário fazer começa em nós, indivíduos. Precisamos de mudar a nossa mentalidade para percepcionarmos e compreendermos o mundo de forma diferente. Com um olhar mais profundo, resultante de um nível de consciência mais desenvolvido. Robert Kegan, investigador de Harvard dedicado ao desenvolvimento psicológico dos adultos, diz que “nós não vemos o mundo como ele é, mas como nós somos”. A evolução das nossas capacidades, enquanto seres humanos, pode ser feita de forma horizontal e/ou vertical. O desenvolvimento horizontal é quando aprendemos a dominar novas competências, aptidões e habilidades. Quando falamos de crescimento vertical, estamos a falar de uma nova forma de interpretarmos o mundo à nossa volta, com um nível de maturidade superior. É como que um upgrade ao sistema operativo do nosso cérebro. Estudos provam que esta evolução é feita ao longo da nossa vida, à medida que amadurecemos e aprendemos a lidar e superar os desafios.

AS ORGANIZAÇÕES

As organizações precisam cada vez mais de pessoas que cresçam verticalmente, sobretudo no que diz respeito às suas lideranças: o nível de consciência dos gestores de topo condiciona e limita o nível de consciência das organizações onde estão.

Paradoxalmente, para que a transformação digital das empresas tenha sucesso é preciso que esta seja acompanhada, ou até precedida, por uma verdadeira transformação analógica. Tirar partido das tecnologias digitais implica uma alteração profunda na forma como as pessoas trabalham. Na sua cultura de trabalho, na maneira como interagem e comunicam entre si. Tudo isto requer um nível de consciência mais elevado, uma capacidade mais apurada de descodificação da desafiante realidade.

Uma das abordagens mais bem-sucedidas são os modelos de gestão baseados no conceito de Agilidade/Agile. Este conceito foi importado da indústria de desenvolvimento de software onde se percebeu que a melhor forma de organizar o trabalho de dezenas, centenas ou milhares de programadores é segmentá-los em pequenos grupos pluridisciplinares, dando-lhes autonomia e responsabilidade total na parte do trabalho que lhes é confiada. A ideia-chave é: quem está mais perto das necessidades dos clientes é quem tem melhores condições para decidir correctamente. As hierarquias tornaram-se pesadas, lentas e incompetentes para lidar com a actual velocidade e complexidade da realidade (para os mais curiosos existem outros tipos de abordagens como as Holocracias ou as DDLO, muito bem descritos no livro Reinventing Organizations: A Guide to Creating Organizations Inspired by the Next Stage in Human Consciousness do Frederic Laloux).

MAIS EQUILÍBRIO E MENTALIDADE ORIENTAL?

Também ao nível civilizacional precisamos de uma transformação analógica para responder às novas exigências. Muitos sociólogos têm falado na evolução das civilizações por pata- mares de maturidade. Gosto em especial da teoria Spiral Dynamics do Clare Graves que adere de forma harmoniosa a todos estes conceitos. É o nível de consciência das pessoas aplicada às civilizações. Graves diz que, quando 15% das pessoas atingem um determinado patamar, a sociedade onde se inserem evolui para o nível seguinte. Tem sido assim desde os primórdios da humanidade, desde que nos associámos em pequenos grupos nómadas para sobreviver, passando pela criação das primeiras cidades para nos defendermos e cooperarmos melhor, depois os Estados e impérios para agregação e especialização de recursos, até aos dias de hoje.

Não consigo prever o que vai acontecer. Mas acredito que o caminho passará por modelos onde existirá uma maior distribuição de poder, harmonia e equilíbrio entre todas as partes. Seja isto ao nível das pessoas, das organizações e empresas ou das civilizações. Estamos a evoluir de uma mentalidade onde pensávamos que havia uma verdade, uma solução melhor que todas as outras (e que o nosso objectivo era encontrá-la), para deixar de acreditar nisso e procurarmos os delicados equilíbrios dinâmicos necessários para lidar com a mudança cada vez mais acelerada e imprevisível.

Curiosamente essa é a diferença entre as filosofias ocidentais – que procuram a verdade – e as filosofias orientais – que procuram o equilíbrio. Será isto uma coincidência?

Este artigo foi publicado na edição de Março de 2019 da Executive Digest.

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