Tarifas? Preços dos alimentos podem disparar a partir de julho, alerta setor (e estes são os que vão subir mais)

“É expectável que todos os produtos – carnes, ovos, leite, queijos, manteiga, iogurtes e outros – tenham aumentos de preços nas prateleiras dos supermercados”.

Pedro Gonçalves
Abril 13, 2025
22:03

A União Europeia anunciou na quarta-feira um pacote de tarifas retaliatórias contra os Estados Unidos, em resposta às políticas comerciais da administração de Donald Trump, e embora a entrada em vigor das tarifas tenha sido adiada por 90 dias — passando para 15 de julho — os efeitos já se fazem sentir nos mercados, em especial no setor agroalimentar. Um dos principais alvos da nova política aduaneira é o milho, um produto-chave na alimentação animal, que, com o novo imposto de 25%, poderá causar aumentos de preços generalizados nos supermercados portugueses.

O milho é um dos principais ingredientes nas rações usadas para alimentar vacas, porcos e frangos em toda a Europa. Ao ser taxado em 25% nas importações provenientes dos Estados Unidos, o aumento do custo da ração torna-se inevitável. E, como explica o raciocínio económico, este custo acaba por ser refletido nos preços finais ao consumidor. Ou seja, carne de vaca, carne de porco, frango, ovos, leite, queijo, manteiga e iogurtes estarão, previsivelmente, mais caros a partir do verão.

Segundo Jaime Piçarra, secretário-geral da IACA – Associação Portuguesa dos Industriais de Alimentos Compostos para Animais, em entrevista à Executive Digest, o impacto no setor é inevitável: “Com os custos da alimentação animal a representarem entre 50 a 70% dos custos de produção, todas as espécies serão afetadas. Assim, é expectável que todos os produtos – carnes, ovos, leite, queijos, manteiga, iogurtes e outros – tenham aumentos de preços nas prateleiras dos supermercados”.

Piçarra revelou que o setor já tinha alertado Bruxelas sobre a necessidade de importar até agosto cerca de dois milhões de toneladas de milho dos EUA, para compensar as quebras de fornecimento da Ucrânia e os problemas de qualidade do milho do Leste europeu. Apesar disso, a Comissão Europeia avançou com a inclusão do milho na lista de produtos tarifados já na primeira fase de sanções. “Pelos vistos, a Comissão não foi sensível a este argumento. A União Europeia continua aberta a negociações e defende tarifas zero dos dois lados, mas a administração Trump tem sido resistente e pouco sensível”, afirmou.

Portugal já depende do milho norte-americano
Portugal é um exemplo claro da vulnerabilidade desta cadeia. Até 2021, o país não importava milho dos Estados Unidos. Com o início da guerra na Ucrânia — então o maior fornecedor de milho para Portugal —, o mercado americano ganhou protagonismo. Em 2022, o valor das importações de milho dos EUA ascendeu a cerca de 10 milhões de euros. Em 2024, esse número subiu drasticamente para perto de 70 milhões de euros, com grande parte desse milho a ser destinado à alimentação animal.

De acordo com o Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP), o milho representou 7% de todas as compras feitas por Portugal aos Estados Unidos no setor agroalimentar entre 2020 e 2024, mesmo tendo começado a ser negociado apenas em 2022. Globalmente, os EUA foram o nono maior fornecedor de produtos agroalimentares para Portugal nesse período — a Espanha, como habitual, lidera com quase metade das importações.

“De facto não é bom para Portugal também o facto de termos um nível de autossuficiência do milho de apenas 25%, e por isso somos um país muito vulnerável e um dos mais expostos a esta volatilidade, e sentiremos mais os efeitos práticos destas tarifas. Só depois desta estabilização, e depois de termos a certeza dos prazos e com estes atrasos nas tarifas, é que teremos noção exata da repercussão nos consumidores. Mas vão aumentar os preços nos supermercados, isso é certo. É só uma questão de tempo, de quando”, relata o secretário-geral da IACA.

Soja escapa às tarifas — por agora
Uma das boas notícias neste pacote de medidas é a exclusão temporária da soja, outro elemento central na composição de rações. A Comissão Europeia anunciou que este produto apenas será incluído nas tarifas a partir de 1 de dezembro, permitindo assim uma janela de negociação e adaptação para o setor agrícola europeu. A soja é especialmente relevante para Portugal, que importa 61% da que consome diretamente dos Estados Unidos.

As simulações realizadas pela IACA apontam para um aumento estimado de 60 milhões de euros nos custos das rações num cenário em que apenas o milho é tarifado, valor que sobe para 150 milhões se também a soja for incluída, este último cenário descrito por Jaime Piçarra como “absolutamente catastrófico”. “O frango será uma das espécies mais impactadas, já que a sua ração contém cerca de 70% de milho”, explicou.

Graça Mariano, diretora executiva da APIC – Associação Portuguesa de Industriais de Carne, partilha das preocupações e fala à Executive Digest num cenário de grande incerteza: “Tudo é possível em termos de aumentos de preços. Ninguém consegue dizer exatamente como e quando acontecerão. Dependerá tudo dos aumentos de preços das rações para os animais primeiro. A partir daí, é tudo em catadupa ao longo da cadeia de produção”.

A responsável da APIC acrescenta que “o setor vê tudo isto com preocupação generalizada e muita antecipação”, sublinhando que o impacto será inevitável se o preço das rações subir efetivamente. E essa subida já começou: “Os operadores anteciparam os aumentos e têm havido maiores compras de milho. Já está a haver subida do preço, mas ainda veremos o que vem”, indicou Piçarra, alertando ainda para a pressão crescente no abastecimento e para a possibilidade de disrupções no mercado.

A situação atual, nas palavras do secretário-geral da IACA, “faz lembrar os primeiros momentos da guerra na Ucrânia, em que tivemos de encontrar alternativas para os cereais que vinham de lá”. Entre os fornecedores alternativos estão países como o Brasil, o Canadá ou a própria Ucrânia, mas o aumento da procura poderá também refletir-se em novas subidas de preços.

A preocupação do setor agroalimentar é tal que, segundo Piçarra, haverá reuniões com os Ministérios da Economia e da Agricultura na próxima semana para discutir eventuais medidas de apoio. “O setor agroalimentar é demasiado importante e relevante para o país”, reforçou.

Outros produtos também serão afetados

Embora o milho seja o exemplo mais claro dos efeitos em cadeia que uma tarifa pode gerar, há muitos outros produtos que passarão a ser taxados. Entre os bens incluídos na lista que será ativada a 15 de julho, encontram-se:

  • Tabaco: cigarros, tabaco em folha e tabaco aquecido;
  • Produtos de beleza: como rímel, produtos capilares, desodorizantes;
  • Produtos de papel: incluindo toalhitas, papel higiénico, guardanapos e lenços;
  • Têxteis e vestuário: t-shirts, calças, casacos e malhas;
  • Calçado;
  • Artigos de consumo diversos: como guarda-chuvas, cerâmica ou vidros para automóveis;
  • Produtos metálicos: como tubos, perfis ou estruturas de aço e ferro.
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