Talento, sorte e sucesso

Por Joana Pais, Professora do ISEG, Universidade de Lisboa, e coordenadora do XLAB-Behavioural Research Lab

Qual é o segredo por trás do sucesso? Vários estudos científicos relacionam sucesso na vida profissional com traços de personalidade, capacidade cognitiva e preferências económicas.

Usando as cinco dimensões básicas da personalidade da psicologia, conhecidas como Big Five, alguns estudos aliam maior conscienciosidade (que corresponde a persistência, autodisciplina e orientação para atingir objetivos), maior extroversão (tendência para procurar a companhia dos outros, ser popular e capacidade de liderar) e menor amabilidade (predisposição para ser compassivo e cooperante e valorizar a harmonia social) a maiores níveis de rendimento ao longo da vida.

Já a ciência económica estabeleceu um vínculo robusto entre o QI e o nível de educação, rendimento e estado de saúde. Vários trabalhos mostram ainda que as preferências relativamente ao tempo, a atitude face ao risco e as preferências sociais são também fatores associados ao êxito. Indivíduos pacientes enfrentam desde logo menor probabilidade de envolvimento em atividades criminosas, e atingem regra geral maiores nível de escolaridade, sucesso ocupacional, rendimento e riqueza. Por outro lado, avaliar a atitude face ao risco permite fazer previsões acerca do percurso no mercado de trabalho, da saúde e de comportamentos de dependência, das decisões de investimento, bem como das decisões de migração. E as preferências sociais estão associadas ao comportamento cooperativo em vários domínios da vida, incluindo o local de trabalho e a gestão de recursos comuns.

E qual o papel da sorte? Um estudo científico levado a cabo por dois físicos, Alessandro Pluchino e Andrea Rapisarda, e pelo economista Alessio Biondo, italianos, tem por objetivo quantificar o contributo da sorte e do talento para o sucesso individual. Os autores apresentam um modelo matemático onde simulam a evolução das carreiras de um conjunto de indivíduos com níveis de talento variados ao longo de uma vida de trabalho de 40 anos. Cada indivíduo começa com o mesmo montante de riqueza inicial e, a cada seis meses, pode enfrentar um momento de sorte ou de azar. Cada instância de azar conduz à perda de metade da riqueza individual; cada momento de sorte duplica a riqueza individual com uma probabilidade que é crescente no nível de talento. O talento, que representa no modelo todos os fatores que sabemos determinantes do sucesso, traduz-se assim na maior ou menor capacidade de agarrar as oportunidades que vão surgindo ao longo da vida.

O primeiro resultado interessante é a marcada assimetria na distribuição final da riqueza que contrasta com a simetria inicial: em algumas simulações, as regras simples do modelo produzem, no final do período de 40 anos, uma distribuição de riqueza na qual 80% da riqueza é detida por apenas 20% da população. Por outro lado, como seria de esperar, ser mais talentoso traz maior probabilidade de enriquecer. Ou seja, o talento está longe de ser irrelevante. Mas – e este resultado é menos intuitivo – quando olhamos para os mais ricos, constatamos que só raramente são os mais talentosos; são os indivíduos com muita sorte e um nível médio de talento que tendem a atingir os mais elevados níveis de riqueza.

Trata-se de uma simulação, mas os seus resultados estão em linha com um número crescente de estudos empíricos que usam dados do mundo real. Afinal, estar no local certo à hora certa pode ser determinante. E nem sempre é verdade que cada um tem a sorte que merece.

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