Sonhos cor-de-rosa

Os investidores continuam a acreditar que a festa irá manter-se apesar de estarmos a bater recordes na longevidade do ciclo económico, agora já com 125 semanas.

Por Paulo Carmona

A Europa e o mundo conseguiram ultrapassar com êxito a crise de 2008/2009 e recuperar largamente os seus níveis económicos, com notáveis excepções de Itália, Grécia e Portugal. Pela primeira vez em 50 anos, temos as principais economias do mundo, agora com a China, no mesmo ciclo económico, e até Portugal gozou de um crescimento notável, o maior desde 2000, embora abaixo dos nossos vizinhos espanhóis. Ou seja, o mundo está bem, mas infelizmente, diz o povo, “não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe”.

Em Março, o Economic Sentiment Indicator (ESI) decresceu 1,9 pontos na União Europeia para 112.5. É o terceiro mês consecutivo de quebra apesar de permanecer a níveis elevados e, não sendo preocupante, é um indicador que tem sempre sinalizado com antecedência alguma desaceleração económica, o que, aliás, é coincidente com as previsões da OCDE e UE para o triénio 2019/2022 e, em alguns casos, o caminho para uma nova recessão.

Do outro lado do Atlântico essa previsão também existe, de 2,7% em 2018 para 2,0% em 2020. Só que as valorizações dos activos internacionais, nomeadamente bolsistas, parecem não reflectir essa desaceleração prevista. Os investidores continuam a acreditar que a festa irá continuar apesar de estarmos a bater recordes na longevidade do ciclo económico, já com 125 semanas, esquecendo a subida das taxas de juro, as ameaças duma inflação que consideram morta, uma guerra comercial e um presidente Trump com muita testosterona. Talvez considerem que os bancos centrais continuem a sustentar o mercado com a famosa “Greenspan Put”. Ou seja, quando os mercados bolsistas tremem, os bancos centrais vêm em seu socorro com baixa de taxas de juro ou outras ajudas, talvez porque receiam que essas descidas possam ter vários efeitos nefastos no crescimento económico.

Há muitas vozes que recomendam prudência nas avaliações estratosféricas das acções e que subidas e descidas são normais nos mercados. As próprias obrigações têm um preço implícito que as taxas de juro dificilmente subirão e que inflação é coisa do passado… Dizia Templeton, o bem-sucedido investidor que criou os fundos com o seu nome, “as quatro palavras que mais dinheiro fizeram perder aos investidores, foram: Desta vez é diferente!”. Será?

Diz o povo, cautela e caldos de galinha…

Este artigo foi publicado na edição de Abril de 2018 da revista Executive Digest.

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