Ser jovem em Portugal

Opinião de Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Executive Digest

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Imagine-me jovem de 16, 17, 18 anos… bem sei que é difícil pois na minha idade os jovens acreditam que já nascemos “cotas”. Esta reflexão também não pretende reflectir todas as escolas, professores ou profissionais ligados ao ensino. Representa sim, muitas situações caricatas que observo com os meus filhos e seus amigos. Existem muito bons exemplos de professores e profissionais da área do ensino, escolas bem geridas, ambientes colaborativos fantásticos. Mas também existe o oposto…



Dizem-me, como jovem, que sou o futuro do país. Que a minha educação é fundamental, promove o elevador social, o crescimento do país, a dinamização cultural, a integração, assegura o futuro, até garante uma coisa que chamam de “segurança social” e para isso querem que tenhamos muitos filhos…. todos os adultos falam com um ar sábio sobre este assunto. Mas surpreendentemente chego à escola e o meu professor está em greve, ou está de baixa e não foi substituído. Ou nem sequer a posição foi ocupada e portanto não tenho aulas desta disciplina durante alguns meses. Ok, vou tentar compensar e se tiver pais que me ajudem e possam pagar explicadores, consigo fazê-lo. Entretanto vou ter as outras disciplinas em que tenho aulas, mas vão decorrer num contentor adaptado, “esconso”, feio, pouco agradável. Será só por uns meses, dizem. Mas este período de alguns meses, por causa de obras na escola, já se prolongam por alguns anos. Alguns edifícios até já acabaram as obras e temos as salas prontas, inclusive com material de alguns dos melhores arquitectos do país. Mas está frio ou calor, não se podem abrir as janelas e a escola não tem dinheiro para ligar o aquecimento ou o ar condicionado. Portanto temos “sauna gratuita escolar”. Ou então alguém no ministério da educação quer que envelheçamos de forma saudável, pois sabe que as Temperaturas frias ativam mecanismo de limpeza celular que decompõem agregações de proteínas defeituosas.
E agora as aulas, pois entre muito bons professores que existem, competentes e dedicados, existe sempre também o/a professor (a) “camafeu”. Que é efetivo (a) já há muito tempo e que portanto já tem os seus “direitos” adquiridos. Nomeadamente o da “tirania” de se poder esquecer que marcou um teste, ou corrigir os testes da forma mais eficiente que existe, atirando-os para cima da cama; os que caem no chão, nota negativa; os que ficam na cama positiva, perto da almofada, nota elevada. E nem vale a pena reclamar com a revisão dos teste junto da DT (antiga diretora de turma) pois não podemos questionar os tais “direitos adquiridos”.

Estou no intervalo e vejo 2 raparigas à pancada no recreio. Olho à volta e apenas vejo as amigas a fazer “reels” ou “tik toks” com música e “avatares” com um formato de soco, enquanto uma pontapeia a outra. Assistentes operacionais (ou contínuos como se dizia) nem um. Não há verba para tantos ou estão numa espécie de “RGA “ a decidir os futuros mecanismos de luta pelos direitos. Tudo bem, é só mais uma pancadaria.

Saio da escola e um “gandulo” com ar suspeito, na esquina, tenta vender-me um exsudato resinoso seco extraído do tricoma, mais conhecido por “haxe” para um “charro. Nada relevante pois só tenho de me preocupar com a “branca”! Até alguns partidos duma “tal esquerda” querem legalizar os charros, não há-de ser grave. Ainda tento ver a PSP da “escola segura” mas nada. O programa ou foi acabado, ou o carro da polícia não tinha verba para a gasolina e mudança das pastilhas de travão. Portanto, e bem, o carro não está lá, pois este programa deve sensibilizar a comunidade escolar para a adoção de regras e comportamentos de segurança, prevenindo alguns comportamentos de risco. Não podem andar a conduzir sem travões, um comportamento decresci e mau exemplo, portanto não há!

Volto para casa, tenho que ir estudar matemática. Vou fazer exame de acesso à universidade este ano, mas o meu professor do ano anterior, durante a pandemia, recusou-se a dar aulas remotas pois não tinha PC. Quando lhe foi entregue um pela escola, informou que não sabia trabalhar com a “máquina maldita”. E continua na escola. Também não interessa, ninguém ligava nada, pois bastava ligar o PC, o professor via que estávamos lá e já podíamos jogar o “WRC” ou “Grand Theft auto” no computador fixo que nós mesmo montamos com a nossa cadeira “gamer”.

Os pais, que culpam a escola de tudo e mais “um par de botas” também não acompanham assim tanto. Os meus, cada vez que há uma reunião com a DT, vêm loucos com a mãe da minha colega Alicinha que reclama sempre da fraca qualidade da comida da cantina; ou com o pai do “monco” que se queixa que o filho é perseguido pela escola, pois ainda só bateu em 4 colegas desde o início do ano, mas já foi suspenso 3 vezes. O melhor, segundo ouço, é a avó da Alicinha (pois os pais trabalham muito e não têm tempo de ir à reunião) que se queixa das mini saias (ou cintos largos como chama) e os piercings que as outras raparigas levam para a escola. Mas ninguém reclama da falta do professor a determinada disciplina ou sequer pede ajuda para perceber os problemas e necessidades escolares do filho. Isso é responsabilidade da escola…

O inglês e o espanhol é a que tenho que me dedicar mesmo, pois mal acabe o curso, já percebi que faço o mestrado fora do país e por lá fico, a ganhar bem. Pode ser que um dia volte.!

E podíamos continuar com muitos mais exemplos que retratam algumas situações que os nossos jovens vivem. A certeza porém é que infelizmente estamos a “perder” uma geração por responsabilidade nossa. Criámos um fosso no mundo, não há homogeneidade de qualidade, o facilitismo é a regra, os exemplos são maus aliado a um discurso que os contraria (promove o engano). Não damos esperança, ou ensinamos com inteligência emocional, a importância do rigor, foco, resiliência, adaptabilidade, dedicação, definir objectivos, construir processos, de falhar e aprender com os erros. Que diabo, nem ensinamos os jovens a estudar… mas são o futuro do país. Resta saber de qual país, pois como vão emigrar, certamente não é Portugal!

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