Recuso-me a ter férias assim

Opinião de Pedro Alvito, Professor de Política de Empresa na AESE Business School

Executive Digest

Por Pedro Alvito, Professor de Política de Empresa na AESE Business School

Alguém chamou a este período de férias de silly season. Entra tudo em regime de desconexão com a vida. A obsessão pelo rompimento e pela negação é total. Para muitos férias é não fazer: não ter que trabalhar, não andar no trânsito, não levar as crianças à escola e às atividades, não ter de se preocupar com refeições, agenda, compromissos e tudo o que leva a nossa “vida” a ser um corrupio.



No fundo férias é não fazer o que fazemos o resto do ano. Ou seja, férias é um conceito negativo do tempo de trabalho. Este facto só por si é assustador, porque nos coloca numa posição desconfortável de alguém que vê o trabalho como uma carga pesada e um esforço desmedido, e as férias como uma rejeição temporária de tudo isto. Ou seja, contrapomos ao nada vivencial o nada existencial.

A palavra “férias” está etimologicamente ligada à palavra “festa”, e, portanto, dias de férias são, ou devem ser, dias de festa. Não porque não trabalhamos, mas pela positiva, porque podemos festejar a vida e tudo de bom que ela tem: podemos viajar, ler um livro, conversar com a família e os amigos, comer e beber, como não fazemos o resto do ano com refeições intermináveis; ver o que habitualmente não vemos, estar com quem não temos tempo para estar durante o ano, visitar locais que nos dão felicidade e tranquilidade e, obviamente, descansar. Tudo isto num tempo que não tem horas, nem compromissos demasiado rígidos. Fazer festa é viver a alegria, deixando-nos contagiar pelos outros e contagiando os outros com a nossa.

Isto não tem nada de negativo, como o ano de trabalho não tem nada de negativo. E se tem para alguns de nós um peso que nos deixa tristes e desanimados o que podemos e devemos fazer? Então vem o melhor das férias, a possibilidade de analisarmos a nossa vida e tudo o que tem de bom e de mau. O que tem de bom para fazermos ainda mais e, se possível, melhor e o que tem de mau para eliminarmos isso do dia-a-dia e não nos contentarmos com a mediocridade. O futuro só é continuação do passado se nós quisermos. Já pensámos alguma vez que se não fizermos nada para mudar a nossa vida isso é uma decisão nossa? Digo muitas vezes nas minhas aulas de estratégia: “não decidir é uma decisão em si mesmo”. E é importante termos consciência disso porque, nas nossas empresas como na política, condenamos as pessoas pelas más decisões, mas devíamos condená-las muito mais pelas não decisões que deviam ter sido tomadas.

De facto, tornar este período uma silly season é uma opção que alguns podem seguir, mas que no final conduz apenas a mais do mesmo: uma espécie de intervalo para a publicidade, num tempo e numa vida sem sentido. Recuso-me a ter férias assim porque valorizo demais a minha vida, o meu tempo e a vida e o tempo dos que me rodeiam e da sociedade em que vivo. Boas Férias.

 

 

 

 

 

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.