Randstad Insight: Não é azar, nem sorte. É liderança

Por José Miguel Leonardo | CEO Randstad Portugal 

Vamos todos de férias, colocamos o out of office e deixamos que as duas ou três semanas nos levem para um espaço de descanso e nos libertem do que foi o nosso dia-a-dia nesta metade do ano.

Mas não é sempre assim, aliás e de acordo com os dados da workmonitor da Randstad, os portugueses são os que menos “desligam” nas férias, os mais tentados a espreitar os e-mails e a responder aos mais urgentes. Um desequilíbrio pessoal profissional acelerado pela transformação digital, pelo always on, por aquele pequeno device que nos acompanha e nos vai notificando do que se passa. Seria até interessante perceber quantas pessoas colocam a mensagem de fora de escritório e mais ainda quantas respeitam essa ausência e deixam de esperar uma resposta “imediata”.

Este desequilíbrio precisa de ser repensado pelas organizações. Sabemos que cada vez mais os talentos valorizam o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, algo que foi reforçado com os millennials e que todos os estudos de tendências apontam para que seja um critério cada vez mais importante na decisão de emprego. Esta preferência não é uma moda e as novas tecnologias também são responsáveis por isso com os novos conceitos de escritório e de trabalho à distância. É preciso olhar para as organizações e perceber como se fortalece a cultura organizacional com o trabalho remoto, como se “veste a camisola” com multigerações debaixo do mesmo tecto e como se satisfazem expectativas tão diferentes, em que todos contribuem para o sucesso da nossa organização. E temos ainda a liderança.

Liderança, ou falta dela

Falta porque não se valoriza a liderança, mas sim a função hierárquica. As competências são confundidas com as hierarquias. Na verdade deveriam ser as competências a originar as hierarquias e não apenas a antiguidade numa determinada empresa ou função; ou, uma espécie de regime monárquico patente em empresas familiares. Falta porque se manda fazer e ser, porque se exige que digam “sim” ou então que se mantenha o silêncio, porque vale tudo (e tudo é mesmo tudo), porque a razão está do lado da chefia e porque eles têm de ouvir. E é nestes “porques” que tudo começa a falhar. Ideias que não passam do papel, projectos que nunca triunfam na implementação, talentos que saem da empresa e a inovação que vinga na concorrência mas que teima em não acontecer na organização.

Porque a liderança é

A liderança é a capacidade de estabelecer uma visão clara e de a partilhar com outros no sentido de a seguirem, dando informação, conhecimento e métodos para realizar esse mesmo caminho, com ética e coordenando e equilibrando potenciais conflitos de interesse entre todos os seguidores e stakeholders. A liderança é esta capacidade, esta competência e esta responsabilidade. Uma competência fundamental para quem decide. E quem decide nas organizações não é apenas a administração, são os colaboradores. Uma liderança individual mas também colectiva, responsável e alinhada, com esta capacidade de ver e entender o caminho. Liderança que é testada ao longo do percurso, questionada e desafiada e que, por isso, exige treino, coaching para garantir inteligência emocional, comunicação e resiliência (características inerentes a um líder). Ao mesmo tempo é fundamental a ética e os valores que devem estar presentes na visão e na forma de estar. Um líder é um exemplo, é-o no sentido de ser e no sentido de fazer.

Os líderes de hoje condicionam o que vai ser o amanhã e as exigências da liderança no futuro. A transformação das organizações e novos modelos de gestão não nos devem levar a desvalorizar a sua importância, pelo contrário. Os negócios não falham sozinhos, falham por falta de liderança e não por questões de azar ou de sorte.

Nunca como hoje foi tão importante a liderança sob o signo da ética e da visão de futuro. Ou como é difícil, mas necessário, compaginar a necessidade da gestão do imediato com as implicações desses actos no futuro, incluindo nas futuras gerações.

Assim vamos de férias, com ou sem out of office, com a capacidade de “desligar” ou  de “suspender” durante umas semanas, reconhecendo que o desafio da gestão de pessoas nunca foi tão intenso e que será crítico em 2018.

Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 149 de Agosto de 2018.

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