Randstad Insight: Mitos e realidades sobre a migração e o mercado de trabalho

RANDSTAD RESEARCH

Executive Digest
Outubro 9, 2025
10:20

É frequente ouvirmos diversas afirmações sobre o impacto da migração no mercado de trabalho português, desde a ideia de que os imigrantes “ocupam” empregos até a percepção de que “sobrecarregam” os sistemas sociais. Embora possam existir nuances em alguns destes argumentos, trata-se de um conjunto de ideias que merecem ser analisadas de forma mais específica e com base em dados concretos.

Neste estudo, o foco está em desmistificar percepções comuns e reforçar os factos acerca da relação entre a migração e o mercado de trabalho em Portugal. Para isso, serão considerados os imigrantes e estrangeiros que residem em Portugal.

Com base em dados recentes e oficiais, exploraremos a participação dos imigrantes e estrangeiros no mercado de trabalho português em 2024, analisando a sua contribuição, os desafios que enfrentam e comparando esta situação com a de outros países europeus.

METODOLOGIA

A metodologia deste estudo centra-se em desmistificar percepções comuns ou reforçar realidades acerca do mercado de trabalho dos imigrantes em Portugal, comparando-as com dados estatísticos. Neste contexto, o primeiro passo fundamental foi a selecção de 10 mitos ou realidades relacionadas com a migração e o mercado laboral.

Com base em diferentes fontes estatísticas oficiais como o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, o IEFP, o INE e a Eurostat, analisamos o panorama completo sobre o mercado de trabalho e a migração em Portugal, comparando a sua situação com outros países europeus.

Os dados da Eurostat permitiram fazer essa comparação relativa da situação dos migrantes em Portugal com a de outros países. Isto é essencial para identificar se determinados desafios se verificam apenas em Portugal ou se fazem parte de uma tendência europeia mais ampla.

A MIGRAÇÃO EM PORTUGAL

A migração em Portugal é um tema em destaque, ocupando um lugar central nos debates políticos, académicos e na comunicação. A razão é clara: o saldo natural em Portugal – diferença entre nascimentos e mortes – tem vindo a diminuir, chegando a valores negativos, e a imigração tem garantido o crescimento e a sustentabilidade populacional do País.

Os números confirmam esta transformação demográfica. Em 2023, Portugal registou 1 045 398 estrangeiros, o que representa 9,8% do total da população do País. Há 10 anos, em 2013, a população estrangeira era de apenas 377 436 pessoas, correspondendo a 3,6% do total de residentes. A população estrangeira triplicou em uma década.

Para aprofundar este estudo, é crucial compreender algumas definições estatísticas. Um “estrangeiro” é um indivíduo de nacionalidade não portuguesa a quem foi concedida uma autorização de residência. Já o “imigrante” é uma pessoa que, no período de referência, entrou no país com a intenção de permanecer por um período igual ou superior a um ano, após ter residido no estrangeiro por um período contínuo de pelo menos um ano. Esta distinção é fundamental, uma vez que o número de estrangeiros é significativamente superior ao de imigrantes. A imigração é um fluxo de novas entradas para residência de longo prazo e a população estrangeira é uma categoria que engloba tanto os recém-chegados com intenção de permanência como aqueles que já estão estabelecidos há mais tempo em Portugal. Também é importante conhecer a procedência dos dados (Eurostat, INE e IEFP) pois esta pode gerar diferenças nas variáveis estatísticas estudadas.

MITOS E REALIDADES SOBRE A MIGRAÇÃO E O MERCADO DE TRABALHO

1. Os imigrantes ocupam os empregos dos portugueses.

A entrada de imigrantes no mercado de trabalho resulta na perda de empregos para os cidadãos nacionais?

Os estrangeiros preenchem vagas em sectores onde existe escassez de mão-de-obra ou que os portugueses tendem a não procurar.

Alguns destes são a agricultura, (6,2% estrangeiros vs. 2,4% portugueses), hotelaria (18,3% estrangeiros vs. 8,7% portugueses) e as actividades administrativas (20,8% estrangeiros vs. 9,8% portugueses).

2. Os imigrantes que vêm para Portugal têm qualificações mais baixas.

Será que os estrangeiros que residem em Portugal possuem qualificações mais baixas em comparação com outros países?

Contrariamente à percepção comum, os dados revelam que os estrangeiros em Portugal possuem qualificações mais elevadas do que os estrangeiros em outros países.

Em Portugal, 31,6% dos estrangeiros possuem ensino superior, superior à média da UE.

(27,4%) e apenas 24,8% dos estrangeiros possuem até o ensino básico, valor inferior à média da UE (40,6%).

3. Os portugueses estão mais sobrequalificados do que os estrangeiros para o tipo de trabalhos que realizam.

Será a sobrequalificação um desafio maior para portugueses ou para estrangeiros?

Os estrangeiros em Portugal estão mais sobrequalificados para os trabalhos que realizam do que os cidadãos portugueses. Enquanto a taxa de sobrequalificação para a população total é de 15,7%, esta percentagem dispara para 42,8% para a população estrangeira.

4. Os imigrantes sobrecarregam os sistemas de Segurança Social.

Compensam os estrangeiros a carga que supõem para a Segurança Social?

Os dados demonstram que, longe de serem uma carga, os estrangeiros contribuem significativamente para a sustentabilidade da Segurança Social.

Em 2024, as contribuições ascenderam a 3645 milhões de euros, enquanto as prestações sociais recebidas totalizaram 687 milhões de euros. Isto resulta num saldo líquido positivo de 2958 milhões de euros.

5. Os estrangeiros estão mais tempo desempregados do que os portugueses.

Quem enfrenta a maior dificuldade em encontrar um novo trabalho, os estrangeiros ou a população em geral?

A percentagem de desempregados de longa duração no total de desempregados é 16,7 p.p. inferior para os estrangeiros quando comparada com a da população total. Em 2024, a percentagem para os estrangeiros desceu para 20,2%, enquanto que para o total da população foi de 36,9%.

6. A migração em Portugal não é um fenómeno recente, mas está a alcançar valores sem precedentes.

A migração para Portugal está realmente a registar um volume e uma aceleração sem precedentes nos tempos actuais?

A população estrangeira residente ultrapassou pela primeira vez a marca de um milhão de pessoas. Em 2023, a população estrangeira com estatuto legal de residente alcançou o valor 1 045 398 pessoas, um crescimento de mais de 33% no último ano. Na última década a população estrangeira quase triplicou.

7. Os imigrantes estão mais concentrados em “trabalhos não qualificados”.

Será que os profissionais estrangeiros, em Portugal, estão a desempenhar funções não qualificadas?

Apesar do seu nível de escolaridade, a percentagem de profissionais estrangeiros na categoria de “trabalhadores não qualificados”, duplica a dos portugueses. Enquanto 14,5% dos portugueses se enquadraram na função de “trabalhadores não qualificados”, essa percentagem é de 29,6% para os estrangeiros.

8. A população imigrante em Portugal é mais jovem do que a população portuguesa.

Constitui a imigração um factor de rejuvenescimento demográfico para Portugal?

55% do total de imigrantes está concentrado nas faixas etárias dos 20 aos 44 anos contra os 29% da população portuguesa.

Esta concentração de imigrantes em idades activas é de vital importância para um país como Portugal, que enfrenta um dos mais acentuados processos de envelhecimento demográfico da Europa, com uma baixa taxa de natalidade e um aumento da esperança média de vida.

9. A taxa de desemprego dos estrangeiros é mais elevada do que a dos portugueses.

É realmente a taxa de desemprego dos estrangeiros mais alta que a dos nacionais em Portugal?

A taxa de desemprego dos estrangeiros quase duplica a taxa de desemprego da população total em Portugal. No primeiro trimestre de 2025 a taxa de desemprego para estrangeiros era de 11,9%, enquanto para a população total era de 6,6%.

Além desta diferença, há uma maior sazonalidade da taxa de desemprego dos estrangeiros. Esta maior volatilidade mostra que os profissionais estrangeiros estão frequentemente empregados em sectores como o turismo, a agricultura e a construção.

10. A contratação temporária e a tempo parcial é superior para os estrangeiros.

É maior a incidência de contratos a termo e a tempo parcial entre os trabalhadores estrangeiros? A percentagem de profissionais estrangeiros com empregos temporários é o dobro da verificada entre os profissionais portugueses. Em 2024, foi de 35,8%, mais do dobro da registada para o total da população (15,9%). Da mesma forma, o emprego a tempo parcial, também era mais prevalente entre os estrangeiros (11,2%) do que para a população total (8,1%).

Mais informações sobre o estudo em: https://www.randstad.pt/randstad-research/migracao-e-trabalho-em-portugal-mitos-e-factos/

Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 234 de Setembro de 2025

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