Com a pandemia de COVID-19, assistiu-se a um aceleramento generalizado da digitalização nas empresas, o que resultou num contexto favorável à crescente contratação de profissionais das áreas das Tecnologias da Informação (TI). No entanto, há muito que o mercado lida com a escassez de profissionais qualificados em algumas destas áreas do conhecimento. Com o grau de sofisticação tecnológica a aumentar cada vez mais, aliado ao surgimento de novas profissões relacionadas com tecnologias emergentes como o 5G, esta escassez poderá agravar-se.
Paulo Ayres, senior manager de Engineering & Industry | IT da Randstad Portugal, explicou à Executive Digest como as empresas tentam atrair os melhores talentos de TI, o que mudou com a pandemia e de que forma a capacidade de comunicação é, afinal, um atributo muito valorizado nos profissionais de TI.
As TI continuam a ser um sector onde existe escassez de talento em Portugal? Sem dúvida. A visão que tenho é que essa escassez até aumentou. Em 2021 tem sido mais difícil recrutar profissionais para esta área do que em 2018 e 2019.
Quais as razões para a existência de falta de profissionais qualificados em algumas das áreas das TI?
Acredito que uma razão importante seja o volume de empresas de tecnologia ou centros de serviços de grande porte que se instalaram em Portugal nos últimos anos. Além disso, destacam-se factores como o ambiente propício para startups, a transformação digital que as empresas se viram obrigadas a fazer devido à pandemia, e a possibilidade de candidatos portugueses trabalharem remotamente para empresas de todo o mundo. Todas estas condicionantes provocam a escassez de talento no sector das TI.
De que forma as empresas reagem a esta escassez de talento? Contratam fora do País?
Com a pandemia de COVID-19, reduziu-se muito a contratação de talentos de fora (para mudarem para Portugal), mas isso foi tema em 2019. O que as empresas fazem, no curto prazo, é buscar diferentes plataformas de recrutamento (consultoras, outsourcing, softwares) e fazer a correspondência entre as necessidades que têm e os profissionais disponíveis no mercado. No médio prazo, é cada vez mais comum as empresas desenvolverem seus próprios talentos através de academias e parcerias com universidades, entre outros.
Quais os subsectores e profissões relacionadas com o sector das TI mais procurados em Portugal?
Todos os que envolvem extracção e tratamento de dados (Big Data, Data Scientists, BI), programadores de linguagens de ampla utilização no mercado (Java, .Net, Python) e profissionais para os mercados de RPA (Robotic Process Automation), IoT (Internet of Things) e Inteligência Artificial.
Além das qualificações, quais os perfis que as empresas procuram nestes profissionais?
As empresas buscam compromisso e pelo menos alguma estabilidade de médio prazo dos candidatos. Muitos são voláteis e mudam rapidamente de projecto.
Que indústrias procuram estes profissionais e com que objectivos?
É cada vez mais transversal, principalmente quando falamos de tratamento de dados, automatização dos processos e desenvolvimentos de ferramentas variadas de sistemas.
A pandemia acentuou a procura por estes profissionais?
Sem dúvida. As empresas viram-se obrigadas a digitalizar seus processos, criar ou ampliar o trabalho remoto e inovar para poderem captar os seus clientes num momento mais sensível do mercado.
Quais as soluções que podem existir para aumentar a oferta destes profissionais? A resposta começa nas universidades?
A resposta passa pelas universidades, mas também pelo desenvolvimento de mais cursos profissionais e não só universitários nessa área.
E qual deve ser a estratégia das empresas para atraírem os melhores profissionais disponíveis no sector das TI?
Este é um tema muito importante. Os candidatos querem, cada vez mais, a possibilidade de trabalhar remotamente (muitas vezes só aceitam projectos com este perfil). Querem tecnologias disruptivas ou projectos que possam fazer de raiz, além de remuneração competitiva. Muitas vezes é necessário chegar próximo do que se pratica fora de Portugal para atrair candidatos. Além da famosa “candidate experience”, é importante que o processo seja, desde seu início, claro e bem desenhado, desde a fase de entrevistas, passando pelo onboarding, integração e até à saída da empresa.
Prevê-se que a introdução de novas tecnologias associadas à implementação do 5G dê origem a novas profissões nas TI, ainda mais escassas?
Sem dúvida e esse já tem sido um desafio. Com as possibilidades infinitas que serão criadas com a implementação do 5G, serão muitas as necessidades de profissionais versáteis que consigam trabalhar o desenvolvimento de soluções e ferramentas que só são possíveis com essa nova tecnologia.
Quais os desafios, do ponto de vista do recrutamento, para algumas áreas tão específicas como robótica, inteligência artificial, data science e outros? Como se avalia um candidato de áreas presumivelmente tão desconhecidas para o recrutador?
O ponto é perceber, em contexto de entrevistas, em que projectos dessas áreas o candidato já esteve envolvido: utilizar de técnicas de entrevistas por competências e investigar o tamanho dos projectos por onde passaram, volume de dados tratados e criticidade para a empresa em questão. É importante conhecer bem o mercado, saber quais são as melhores empresas da área e analisar a trajectória desse candidato; do mesmo modo, é essencial conhecer como construiu o seu saber até chegar a esse nível de sofisticação técnica.
Quais são as características que um bom candidato deve ter para estas áreas?
Por incrível que pareça, a capacidade de comunicação é muito importante. Saber tratar com os diversos intervenientes de um projecto de inteligência artificial e/ou tratamento de dados com grande volume, é fundamental, bem como perceber os porquês das necessidades do negócio e traduzir isto em insights que possam ser utilizados para cada área.
As soft skills também são importantes nestas profissões?
Cada vez mais. O perfil do profissional de TI com poucas competências pessoais e muito técnico ainda tem espaço, mas é cada vez mais comum (e procurado), que os candidatos, para além do conhecimento técnico, tenham boa capacidade de comunicação e relacionamento.
Este artigo faz parte do Caderno Especial “Executive IT”, publicado na edição de Maio (n.º 182) da Executive Digest.









