Quantos R’s são necessários para uma economia circular?

Opinião de Luís Marçal, responsável pela área de negócio Smart Infrastructure e um dos responsáveis pela Sustentabilidade na Siemens Portugal

Executive Digest

Por Luís Marçal, responsável pela área de negócio Smart Infrastructure e um dos responsáveis pela Sustentabilidade na Siemens Portugal

Repensar a forma como produzimos e consumimos é, hoje, uma inevitabilidade se quisermos alcançar o objetivo da neutralidade carbónica até 2050 e garantir a subsistência da nossa economia e do nosso modo de vida. Só temos um planeta, e este merece bem mais do que quantidades infindáveis de resíduos e de lixo que não conseguimos tratar, uma biodiversidade ameaçada e recursos cada vez mais escassos, difíceis de encontrar e extrair, como as terras raras ou o cobre.



Numa altura em que a Humanidade está a consumir 70%[1] mais recursos do que os ecossistemas da Terra conseguem regenerar, e apenas 7,2%[2] dos materiais em utilização estão a ser reciclados, todos nós – sobretudo as empresas e os decisores políticos – enfrentamos uma pressão crescente para inovar e encontrar novas formas de produzir, sem comprometer a competitividade e a resiliência. É neste equilíbrio que a economia circular se afirma como um dos caminhos para a solução que ambicionamos, tendo um enorme potencial para mitigar os desafios ambientais globais e reduzir significativamente a produção de resíduos. Segundo os mais recentes dados da OCDE[3], no caso das cidades, que são responsáveis por entre 50% a 70% dos resíduos a nível mundial, a adoção generalizada dos princípios da economia circular poderá permitir uma redução de 34% na produção total de resíduos urbanos até 2030, quando comparado com os níveis de 2020. Em setores como a construção, alimentação, transportes ou sistemas de energia, o impacto na redução das emissões globais de gases com efeitos de estufa pode ir de 40% a 70% até 2050.

Com isto em mente, e respondendo à questão que dá o mote a este artigo, para transformarmos uma economia linear numa economia circular são necessários sete R’s: Recusar, Reduzir, Repensar, Reparar, Recondicionar, Reproduzir e Reciclar. Em suma, esta estratégia passa por recusar produtos e soluções desnecessários, reduzir o consumo de recursos naturais e materiais, repensar o design, a produção e a utilização, reparar produtos danificados, recondicioná-los para garantir a restauração de funcionalidades através da manutenção, reproduzir através da desmontagem e reconstrução completa e, por fim, reciclar materiais para os reintegrar no ciclo produtivo.

Além de promover uma utilização mais eficiente dos recursos, contribuindo para um modelo económico mais sustentável, esta abordagem abre portas a novas oportunidades para as empresas, uma vez que o aumento de eficiência na utilização dos recursos e a utilização de materiais secundários não só traz vantagens económicas como contribuí para cadeias de abastecimento mais resilientes. Na Europa, a economia circular gerou receitas de 160 mil milhões de euros em 2021, e as previsões apontam para que possa ultrapassar os 800 mil milhões de euros em 2040, ou seja, um valor cinco vezes superior[4].

Esta tem sido uma abordagem que a Siemens, que assinala 120 anos de presença em Portugal, tem procurado implementar no desenvolvimento das suas soluções, logo desde o início da conceção dos produtos, um ponto crucial, uma vez que 80% do impacto sustentável de um produto é definido na sua fase de conceção[5], mas também na produção e nos serviços que presta, e também nos projetos dos seus clientes. Ao contrário das abordagens tradicionais, o ecodesign tem em consideração todo o ciclo de vida do produto, incluindo a extração de recursos, o aprovisionamento, a prototipagem, a produção em série, as múltiplas utilizações, a fase de fim de vida, bem como todos os processos logísticos e de transporte. O ecodesign é também uma estratégia empresarial inteligente. Ao adotar estes princípios, as empresas podem reduzir custos e minimizar desperdícios.

A transição para uma economia circular é, por isso, uma condição indispensável para a sustentabilidade do planeta e para a competitividade das empresas. Precisamos de criar produtos circulares, de abraçar o negócio circular e de fomentar a circularidade nas organizações com que interagimos, dos clientes aos fornecedores, sem esquecer os parceiros. Mais do que uma tendência, é uma urgência, que, quanto mais cedo for concretizada, maior será o valor que conseguiremos gerar para a economia, a sociedade e as próximas gerações.

[1] Fonte: Humanity uses 70% more of the global commons than the Earth can regenerate | GEF

[2] Fonte: Cutting material consumption by one-third is key to tackling climate change: study – Circle Economy

[3] Fonte: https://www.oecd.org/en/publications/the-circular-economy-in-cities-and-regions-of-the-european-union_e09c21e2-en.html

[4] Fonte: Investing in a circular and waste-free Europe – Summa Equity

[5] Fonte: Ecodesign your future – Publications Office of the EU

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