Qual o espaço, nos dias de hoje, da Universidade?

Por Ana Côrte-Real, Professora Associada da Católica Porto Business School, consultora e Coach

Quando pensamos na educação, no atual contexto, temos mais questões do que respostas. O que significa que os desafios são inúmeros.
Há uma preocupação sempre presente relacionada com o acesso ao ensino superior, o número de licenciados, a nossa posição face ao contexto europeu, etc. É legítimo que não nos satisfaça termos apenas 4 em cada 10 jovens de 20 anos a estudar no ensino superior e consequentemente que se ambicione para 2030 aumentar essa penetração do ensino superior em 50%, atingindo uma taxa média de frequência no ensino superior de 6 em cada 10 jovens com 20 anos.
Nada contra estas metas e a preocupação com as estatísticas.
Mas a reflexão sobre a experiência na Universidade, sobre os métodos de ensino, sobre as metodologias de avaliação, sobre a formação integral de um ser humano, sobre o bem-estar dos nossos Jovens/alunos, sobre a jornada dos 3, 4, 5 ou 6 anos de uma licenciatura, fazem-me pensar muito no papel das instituições universitárias.
Na verdade, o acesso a conhecimento, perdoe-me quem não concorda comigo, tornou-se uma espécie commodity (mais numas áreas do que noutras, naturalmente). Temos os jovens a assistir a aulas no Youtube, de outras escolas, dizendo que percebem melhor as matérias do que com o seu professor. Temos cursos online, gratuitos, capazes de dotar os nossos jovens de competências técnicas extremamente relevantes. Este ambiente digital do ensino permite aos nossos jovens uma espécie de formação Netflix: escolhem o quê, quando e com que cadência pretendem fazer as formações.
Mas se ao nível da licenciatura temos o peso do diploma, ao nível da formação executiva o cenário é ainda mais gritante. A oferta de cursos online pelas Business Schools de renome internacional, a preços extremamente competitivos, em formatos “on-demand” e com uma qualidade assegurada ao nível dos conteúdos, dos materiais de suporte, da plataforma de ensino e do acompanhamento do diretor executivo do programa, assegurando, ainda, fóruns para não se perder a importante criação de rede de contactos, torna o desafio ainda maior.
Pode parecer que com este “discurso” estou a retirar valor às Universidades. Mas não. De forma alguma. Estou apenas, e só, a focar o ponto que me parece crucial: as Universidades, para darem resposta ao facto de o conhecimento poder ser uma commodity e de acesso massificado, devem ser O espaço por excelência do desenvolvimento das pessoas, numa perspetiva integral, através da criação de um contexto social e humano, que marque a diferença e que contribua para que a par das competências técnicas os nossos jovens ganhem competências sociais, éticas, assentes em valores e na procura do bem comum.
É urgente que os campus universitários se tornem um espaço onde os nossos alunos gostem de “viver”, de socializar, de estudar, de aprender, de interagir com as pessoas. É urgente que os Professores criem verdadeiras experiências de aprendizagem e não só a pura e dura transmissão de conhecimentos, muitas vezes mais num formato de monólogo do que de partilha e de facilitação de aprendizagem. É fundamental que haja gosto em ir às aulas e que faça diferença ir para a faculdade. Não só pelas aulas mas por toda a experiência que um campus pode proporcionar.
É urgente que quem ensina e quem impacta no ensino goste, verdadeiramente, de pessoas, se foque no seu desenvolvimento e não apenas em métricas e resultados.
A educação é a grande vantagem competitiva dos países. A experiência da jornada da educação é determinante para termos pessoas integralmente capazes e sãs, que possam vir, inclusivamente, a governar os países.
O desafio é de todos. Mas é mais de quem todos os dias vive nas Universidades. Por isso, esta reflexão me preocupa todos os dias como Professora e Mãe.


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