Preocupações e boas notícias

Por Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros

Executive Digest

Por Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros

Num mundo incerto, perigoso, as notícias que nos inundam em catadupas parecem ter apenas o condão de nos preocupar. É certo que a situação nacional e global não está fácil, mas o mundo já passou por situações tão, ou mais, complexas e a vida continuou. E a informação que nos tem chegado relativamente a conflitos e problemas geopolíticos relacionados com os minerais críticos, não nos dá descanso. Mas nem tudo são notícias negativas.



Vejamos então, de uma forma abreviada, os dois lados da questão, tendo como foco as utilizações desses minerais para fins energéticos e a situação europeia e nacional.

Pelo lado negativo temos:

  • A Europa continua muito dependente do exterior (prospeção e exploração interna e metalurgia), em grande parte da China, em termos de minérios;
  • Em termos de extração e processamento, a China controla atualmente mais de 90% da produção global de terras raras refinadas (ex. usadas em aerogeradores e motores elétricos);
  • O principal produtor e que tem as maiores reservas de tungsténio (ex. usado em componentes sujeitos a altas temperaturas) é a China;
  • A descarbonização da economia aponta para um aumento da eletrificação e, consequentemente, da procura e consumo de cobre;
  • Qualquer incremento da exploração de reservas europeias dos minérios necessários demorará muitos anos e tem acentuadas restrições;
  • No ano passado a China impôs restrições à exportação de antimónio (ex. usado em baterias) e já tinha imposto restrições à exportação de gálio e germânio (ex. usados em chips e células solares) em 2023;
  • A China tem vantagens do ponto de vista da refinação de muitos dos metais essenciais à transição energética;

Pelo lado positivo temos:

  • A Europa é rica em minérios e ficou estabelecido no Critical Raw Materials Act que até 2030 a UE não venha a depender de um único país terceiro em mais de 65%, relativamente a qualquer matéria-prima e que 10% do consumo destes recursos tenha de ser obtido a partir de minas europeias e 40% de ser processados na Europa, para além de 25% ter que ter origem na reciclagem;
  • Existe um programa financiado pela Comissão Europeia denominado EuRare para desenvolver a indústria europeia das terras raras;
  • Portugal está no top 10 dos maiores produtores de lítio à escala mundial (mesmo sem a mina do Barroso é o 9º produtor), podendo vir a assumir uma posição de relevo;
  • O tungsténio (volfrâmio) que é essencial à indústria do armamento e em aplicações energéticas é obtido em Portugal nas minas da Panasqueira;
  • Portugal tem duas minas de cobre, em Aljustrel e Castro verde;
  • Existem novas tecnologias (ex. Mahle, Valeo) de motores elétricos sem imãs (logo sem terras raras);
  • Foram descobertas enormes jazidas, na Finlândia e na China (que podem abastecer o mundo por milhares de anos) com tório que são alternativas viáveis para a produção de energia nuclear com menores riscos e resíduos radioativos;
  • O Japão quantificou em milhões de toneladas as terras raras presentes numa área localizada nas suas águas territoriais, quantidade suficiente para abastecer o mercado mundial durante centenas de anos;
  • Foram “descobertos” depósitos significativos de terras raras na fronteira entre a Extremadura espanhola e Portugal (4 jazidas em solo alentejano) que estão ainda associadas a outros minerais valiosos.

Concluindo, a Europa e Portugal podem tornar-se fundamentais na geopolítica da energia e no fornecimento das matérias-primas necessárias para as tecnologias energéticas de baixo carbono, reduzindo a dependência do exterior, nomeadamente da China.

O rearmamento da Europa obriga também os membros da UE a terem que repensar as respetivas políticas de exploração mineira. Existem assim oportunidades estratégicas para cadeias de abastecimento e de valor associadas, se desenvolvidas em tempo útil. Dado impacto da mineração, todavia, será essencial equilibrar os aspetos económicos subjacentes com a sustentabilidade ambiental.

Como se verifica, existem também descobertas de reservas e novas tecnologias que permitem “aliviar” a pressão na procura de certos minerais e obviar assim tensões geoestratégicas e geopolíticas.

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