Precisas que te faça um boneco?

A opinião de Manuel Lopes da Costa, Empresário

Executive Digest

Por Manuel Lopes da Costa, Empresário

“O que mudou no Artigo 60.º? Finanças fizeram um ‘desenho’ para explicar aos deputados” (in eco.sapo.pt de 23/03/2021).



A confusão é tanta, as interpretações muitas e, como sempre, o verdadeiro conhecimento com profundidade das matérias é pouco, tão pouco que o Sr. Secretário de Estado Adjunto e dos Assuntos Fiscais achou melhor explicar aos senhores deputados as implicações fiscais do negócio da venda das barragens da EDP à francesa Engie recorrendo a um “boneco”. O assunto, que agora passou a ser uma arma de arremesso política, é bastante simples e toda esta celeuma bastante ridícula, senão vejamos: A EDP é uma empresa privada, que visa o lucro para o poder distribuir entre os acionistas. Enquanto vivermos neste regime económico — que, bem sei, alguns gostariam de eliminar — a realidade é esta. Assim sendo, a EDP tem o direito, e mesmo o dever, como empresa, de procurar a maior eficiência fiscal possível. E, não, não é crime! Eficiência fiscal não é evasão fiscal. Existe uma diferença clara que se consubstancia num par de anos de cadeia. É, portanto, em tudo legítimo que a EDP tenha nos seus quadros bons fiscalistas ou que contrate os melhores do mercado para a assessorarem e maximizarem os seus proveitos. Talvez, sobre o que os senhores deputados deveriam refletir, porque são eles que criam as leis, é como foi possível criarem uma lei que permitiu uma eficiência fiscal desta envergadura. E, já agora, também deveriam refletir — em vez de andarem numa caça às bruxas ridícula para ver quem é da Maçonaria ou da Opus Dei — sobre como é possível que o regime de incompatibilidades da Assembleia da República permita a acumulação da atividade de deputado com a de advogado (in Parlamento.pt – Estatuto dos deputados). Assim sendo, qualquer um pode, até maldosamente, inferir que alguns deputados advogados criam de manhã as leis para as quais vendem o seu patrocínio durante a tarde. Como descrito no aforismo de Bruno Giordano: “Se non è vero, è molto ben trovato”.

Portanto, em vez de atacarem impiedosamente quem, muito provavelmente, fez um excelente trabalho, ou seja, o consultor fiscal da EDP, deviam era refletir sobre as leis que andam a criar e serem mais críticos do próprio trabalho. Por fim, convém clarificar que o imposto a pagar, isto se ao fim de dez ou mais anos de processo judicial se chegar a essa conclusão, é da responsabilidade da Engie e não da EDP.

E, por falar em eficiência fiscal, quarta-feira a Senhora Ministra das Finanças da Suécia deu um “ralhete” ao governo português por ainda não ter acabado com o regime especial dos residentes não habituais. “Esperámos bastante tempo. Fizemos um acordo em 2019. Esperámos dois anos e a nossa paciência terminou” (in publico.pt 23/03/2021). Com ares de verdadeira “Madalena ofendida”, a Ministra disse que o nosso governo ainda não cumpriu o que prometeu. Mais: num ato que quase parece um incitamento à rebelião dos portugueses, referiu: “É interessante e até fascinante observar a forma como os cidadãos comuns em Portugal aceitam isto”. E, isto, no caso, é: “se um paciente sueco e um paciente português estiverem lado a lado num hospital [português], o português pagou impostos pelos dois, porque os suecos têm todos os direitos — cuidados de saúde, transportes públicos —, mas não pagam impostos” (in publico.pt de 23/03/2021).

Senhora Ministra Magdalena Andersson, a Senhora já devia saber que neste cantinho à beira-mar plantado os únicos que podem dizer mal dos seus habitantes, dos seus políticos ou desta terra são os portugueses. Já devia ter aprendido isso com o seu homólogo holandês que, por sinal, se saiu muito mal da última vez em que teve a ousadia de se referir aqui a esta rapaziada de muitos e bons costumes.

Mas, vamos por partes Senhora Ministra. Em primeiro lugar, dizer-lhe que o nosso governo fez consigo nem mais, nem menos, o que faz connosco, ou seja, tardar em cumprir o que promete. Em segundo lugar, explicar-lhe que este país, infelizmente, precisa nestes momentos de crise profunda de se agarrar ao que tem e, o que tem, são praias e sol apetecíveis para os reformados europeus, entre os quais os suecos. E assim, Portugal estrategicamente só pode mesmo aspirar — e Deus permita que o consiga — a transformar-se na Florida da Europa. Nesse sentido, Portugal tem que conseguir atrair todos os reformados de todos os países ricos do Norte. Pelo que, o regime dos residentes não habituais foi das coisas mais inteligentes que alguma vez os deputados desta nação criaram e que o governo implementou. Nós queremos mais Suecos reformados e a não pagarem impostos a viver em Portugal, Senhora Ministra. E, queremos, porque eles chamam os filhos, os netos e os amigos ricos para os virem visitar e passar férias nas nossas lindas praias, debaixo do sol que eles não têm. E mais: muitos deles, após um período de ócio, e apesar de terem que ultrapassar todo o tipo de tropelias e dificuldades burocráticas, atrevem-se mesmo a investir parte do seu dinheiro aqui, criando novos negócios que geram novos postos de trabalho. O novo minigolfe de Alvor, propriedade de quatro suecos, é disso um excelente exemplo. Assim sendo, Senhora Ministra, nós ganhamos mais com as casas que lhes vendemos, as refeições que lhes servimos, os quartos de hotel que vendemos aos familiares e amigos e os postos de trabalho que eles nos criam do que com a visão redutora de lhes cobrar impostos sobre as suas chorudas reformas. Já agora Senhora Ministra, gostaria de a ver igualmente tão exaltada com o seu homologo holandês que implementou uma política fiscal altamente atrativa para as holdings europeias, fazendo da Holanda, em apenas três anos, o país com o maior número de holdings com sede em seu território da Europa. Combinamos o seguinte: a Senhora consegue que a Holanda acabe com esse regime e perca essa vantagem competitiva e a rapaziada aqui logo pensa em acabar com o regime dos residentes não habituais, OK? E, mais, se quiser arranjar um incentivo fiscal para atrair “desenrascas e criativos” garanto-lhe que terá uma quantidade infinita de conterrâneos meus a rumar à sua terra sendo que não lhe vamos levantar o pé de vento que nos está a levantar a nós. Recordo-lhe que, atualmente, com os nossos impostos, estamos a pagar a formação dos melhores engenheiros, médicos e enfermeiros da Europa, gente esta que é atraída, logo à saída das nossas universidades, para trabalhar nas vossas empresas e hospitais sem que sejam pedidas satisfações a ninguém. É a economia global a funcionar Senhora Ministra, veja isto de outra forma: os impostos que não está a receber dos seus queridos reformados é o preço a pagar por ter, à borla, engenheiros, médicos e enfermeiros altamente qualificados a trabalhar no seu país. Por favor, não nos tire daqui os seus conterrâneos, caso contrário ver-me-ei obrigado a promover uma campanha de nacionalização de suecos em massa, algo que só nos traria vantagens: aumento da população, aumento da riqueza média, aumento do nível de escolaridade médio, etc.

Fique igualmente sabendo, Senhora Ministra, que esses suecos nacionalizados também seriam elegíveis para o regime de residentes não habituais, atendendo a que seriam agora “portugueses de gema” tendo sempre trabalhado fora do país. Diga lá que não somos mestres a fazer leis?

Por fim, referir-lhe Senhora Ministra que nos hospitais portugueses tratamos de todos os doentes. O nosso excelente corpo clínico, todos os fantásticos profissionais do nosso sistema de saúde, público e privado, tratam de quem precisa com humanidade, independentemente de quem paga, ou não, impostos em Portugal e independentemente da sua nacionalidade. Sempre foi assim.

Porque somos assim como povo, somos generosos, bons, humanos, humildes e hospitaleiros, só lhe pedimos uma coisa: Que pelo menos nos deixe ser felizes como local de acolhimento dos reformados europeus.

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