Por João Santos, CFO da CRON STUDIO
Em Portugal e na União Europeia (UE), as Pequenas e Médias Empresas (PMEs) continuam a representar 99% do tecido empresarial e são um pilar fundamental, motor de inovação e geração de emprego, liderando o crescimento económico na UE em 2025. A nível nacional, as projeções para este ano são animadoras: o emprego nas PME deverá crescer 2,6% e o valor acrescentado real poderá aumentar até 3,7%, superando o ritmo das grandes empresas. Do lado das startups, o cenário é igualmente promissor: só na primeira metade de 2025, estas empresas já captaram cerca de 577 milhões de euros em investimento, ultrapassando o total do ano anterior e reforçando o papel destas organizações na inovação e internacionalização da economia portuguesa.
No entanto, apesar deste evidente potencial e da crescente oferta de programas, como o recentemente anunciado “Instrumento Financeiro para a Inovação e Competitividade”, que oferece até 80% de financiamento a fundo perdido para projetos de investigação, desenvolvimento e inovação, persistem obstáculos que limitam a plena utilização destas oportunidades.
É neste contexto, repleto de potencial mas ainda assombrado por barreiras estruturais, que se impõe refletir: o verdadeiro problema não é a falta de ambição das empresas, é a ausência de tradução entre mundos que continuam a falar línguas diferentes.
O grande desafio continua a ser o desalinhamento entre o ritmo das empresas e o tempo dos fundos. Enquanto as empresas inovadoras – sejam startups ou PMEs – precisam de responder ao mercado com rapidez e agilidade, os fundos seguem calendários longos, regulamentos detalhados e amarras ao projeto de candidatura, muitas vezes alheio à urgência iterativa dos negócios, sendo este último ponto ainda mais crítico no caso de startups que executam ideias em ciclos curtos.
Enquanto uma empresa descreve o seu produto, impacto, clientes e métricas de crescimento, os fundos pedem enquadramentos em eixos prioritários, indicadores e metas que muitas vezes são difíceis de assegurar na realidade iterativa de pequenas empresas inovadoras e startups. A burocracia ainda é um entrave, especialmente para PMEs e startups, sem recursos humanos dedicados apenas a estas questões. Mas o maior problema é, na verdade, a forma como a informação é partilhada: pouco clara, muito técnica, muitas vezes dispersa. Há também uma tendência para lançar avisos com prazos curtos, exigindo documentos e estratégias que, na prática, muitas empresas ainda não têm formalizadas. Melhorar a comunicação e simplificar os processos seria um enorme passo para tornar os fundos verdadeiramente acessíveis.
A tradução, já aqui mencionada, é o processo de construir pontes entre esses dois mundos, para tornar o projeto de uma empresa elegível sem o desvirtuar, e mostrar que há inovação e mérito mesmo fora dos moldes tradicionais.
Neste sentido, as entidades intermediárias – incubadoras, aceleradoras, venture studios, associações empresariais – são fundamentais. Estão próximas das empresas, conhecem os desafios de cada setor e têm capacidade para traduzir necessidades em estratégias de financiamento. Além disso, funcionam como facilitadores de contexto: ajudam a perceber o que está disponível, o que se adequa a cada caso e como montar uma candidatura sólida.
Ainda assim, é preciso ir além do apoio tático e mexer estruturalmente nas regras. Defendo mais flexibilidade nos critérios e uma linguagem mais orientada para o impacto prático. Muitos projetos com valor real ficam de fora por não se encaixarem em categorias demasiado rígidas. Isto é particularmente verdade no caso das startups, onde o valor está muitas vezes no risco e no atrevimento de testar caminhos ainda não percorridos. Outra mudança importante seria o desenho de avisos adaptados a diferentes fases de maturidade empresarial, com processos ajustados à realidade de quem ainda está a consolidar estruturas. No fundo, a linguagem e os critérios dos fundos têm de ser adaptados. Precisam de ser mais diretos, próximos da realidade empresarial, práticos e não apenas formalistas. Isto permitiria reconhecer diferentes formas de inovação, inclusive a de maior risco, mas com potencial elevado de impacto económico e social. A inovação não vive apenas em centros de investigação e na indústria estabelecida.
Os riscos de não resolver esta questão são claros: acabamos com empresas que moldam os seus projetos apenas para caberem nos fundos, mesmo que isso as afaste do seu propósito original. Precisamos de garantir que os fundos acompanham a evolução real das empresas, e não o contrário. O contrário leva à distorção e, no limite, ao desperdício. Enquanto não formos capazes de criar esta ponte, estaremos a deixar ideias, oportunidades e futuro por aproveitar.



