O reaparecimento do Partido Pantera Negra para a Autodefesa está a ganhar visibilidade nos Estados Unidos, num contexto de crescente tensão social marcada por protestos contra a violência policial e as operações do Serviço de Controlo de Imigração e Alfândegas (ICE). O ressurgimento do grupo coincide com as manifestações em Mineápolis, no estado do Minnesota, após a morte a tiro de Renee Good, abatida por um agente do ICE, e de Alex Pretti, médico de 37 anos morto durante uma operação enquanto filmava uma rusga policial.
Mais de 20 dias após a morte de Renee Good, os protestos continuam na cidade, alimentados por uma escalada de violência que inclui disparos mortais durante manifestações recentes. É neste cenário que os Panteras Negras, um movimento histórico dos anos 60 ligado à luta contra o racismo e a brutalidade policial, voltam a marcar presença, agora com uma nova geração de membros armados e uma agenda centrada na oposição às políticas migratórias da administração do presidente norte-americano, Donald Trump.
O grupo tem-se feito notar sobretudo em Filadélfia, onde vários membros foram vistos armados nas ruas e em frente à Câmara Municipal, numa demonstração de força que afirmam ser uma resposta direta à atuação do ICE. “Se o ICE acha que pode vir e brutalizar o povo enquanto os Panteras Negras estão aqui, que venham e descubram”, declarou um dos membros do movimento. “É preciso proteger o povo com espingardas de assalto e caçadeiras, enfrentá-los com a mesma força. Todo o poder para o povo”, acrescentou.
Segundo informações citadas pelo The Philadelphia Inquirer, os atuais Panteras Negras dizem ser herdeiros diretos do movimento original e afirmam ter sido treinados por membros sobreviventes da organização fundada nos anos 60. O grupo apresenta-se armado, garantindo que todos os seus membros cumprem a legislação em vigor e possuem autorização legal para o porte de armas, algo permitido no estado da Pensilvânia mediante licença.
A liderança do movimento está a cargo de Paul Birdsong, de 39 anos, residente no oeste de Filadélfia. Birdsong afirma que, há vários anos, distribui semanalmente alimentos de forma gratuita a comunidades carenciadas em diferentes bairros da região. O líder esteve presente, acompanhado por outros membros, numa grande manifestação em Filadélfia realizada no dia seguinte à morte de Renee Good, ocorrida a 8 de Janeiro. “Isso não teria acontecido se nós lá estivéssemos”, afirmou. “Nem uma única pessoa teria sido tocada”, garantiu.
Birdsong assume como objetivos centrais do grupo a abolição do ICE e a responsabilização política do governo de Trump pelas mortes e pela atuação das forças de segurança. O líder dos Panteras Negras refere ainda que o ressurgimento do movimento está diretamente ligado à morte de George Floyd, em 2020, episódio que desencadeou protestos em todo o país. Segundo Birdsong, foi após esse acontecimento que foi recrutado para o grupo.
De acordo com o próprio, existirão atualmente pelo menos uma centena de membros ativos dos Panteras Negras na região de Filadélfia. Para além das ações de protesto, o grupo desenvolve iniciativas de apoio social, como programas de distribuição gratuita de alimentos e bens essenciais. Na passada sexta-feira à noite, Birdsong e outros membros instalaram uma despensa temporária junto à Igreja do Defensor, no norte da cidade, onde distribuíram fruta fresca, conservas e produtos de higiene.
O financiamento destas ações solidárias resulta de contribuições diretas dos próprios membros e de donativos da comunidade local. “É de grande ajuda”, afirmou Dawn Henkins, de 60 anos, residente na zona, sublinhando que este tipo de apoio é “especialmente útil” para pessoas idosas sem rendimentos fixos.
O Partido Pantera Negra original foi fundado em 1966, em Oakland, na Califórnia, por Bobby Seale e Huey P. Newton, mantendo atividade nacional até ao início da década de 1980. Entre os seus objetivos estavam o combate à brutalidade policial e a promoção de mudanças sociais, como a reforma do sistema prisional e o acesso a serviços básicos, incluindo educação e cuidados de saúde.
O grupo esteve durante anos sob intensa vigilância das autoridades norte-americanas. O então director do FBI, J. Edgar Hoover, considerava os Panteras Negras uma ameaça e promoveu operações destinadas a “desacreditar, perturbar e destruir” o movimento. A repressão culminou em episódios como a morte a tiro de dois membros, Fred Hampton e Mark Clark, durante uma rusga policial que mais tarde se soube ter sido coordenada pelo FBI.
A presença de membros armados continua a gerar controvérsia, apesar de o movimento se definir como pacifista. Paul Birdsong surge frequentemente empunhando uma MP5, um a das armas mais utilizados a nível mundial. Ainda assim, o líder defende a legitimidade da autodefesa armada. “Sentimo-nos seguros”, afirmou. “Aqui não há polícias nem traficantes que nos façam mal”, concluiu.














