Sokhna Ndiaye tem apenas três anos. A menina espanhola ainda não sabe, mas é ela a responsável por ter salvo a vida da irmã mais velha, Diama, de uma doença grave e que se revelaria fatal. Isto porque Sokhna foi concebida através de fertilização in vitro e geneticamente selecionada para que pudesse ajudar a irmã.
Diama sofria de anemia falciforme, uma sentença de dores constantes e morte prematura já que a esperança média de vida para os doentes é entre 30 e 40 anos. A menina de 11 anos não conhecia outra vida que não fossem dores de barriga, crises de dores por todo o corpo ou problemas de mobilidade, que a afastavam da escola semanas a fio.
A única cura seria um transplante de medula de um dador compatível, idelamente um irmão. Mas Diama, na altura não tinha irmãos. Os pais, que queria ter mais crianças, nunca tinham concebido outro filho com medo de que também esta criança tivesse a doença, já que os dois têm o gene anómalo responsável pela anemia falciforme.
Assim, os dois entraram num processo de diagnóstico de pré-implantação genética no Hospital Sant Pau, em Barcelona, ou seja, um processo de fertilização in vitro em que o embrião foi escolhido tendo por base o seu código genético, para que não tivesse a doença e fosse imunologicamente compatível com Diama.
A ideia era que Sokhna nascesse sem anemia falciforme e que amostras de sangue do cordão umbilical e de medula pudessem ser transplantadas.
O processo foi um sucesso e constitui a primeira vez em Espanha que a seleção de um embrião compatível e consequente transplante de medula curou anemia falciforme.
Agora, três anos volvidos, Diama está curada da doença, que acontece devido a uma anomalia na hemoglobina, a proteína que transporta oxigénio no sangue, e que faz com que os glóbulos vermelhos fiquem deformados e com menos flexibilidade. Assim, as células não conseguem passar pelos vasos sanguíneos mais estreitos e pode obstruir a circulação de sangue, causando danos nos tecidos que ficam sem oxigénio.
O processo de cura foi “uma corrida de obstáculos”, que começou com a primeira visita ao médico, em 2015, quando a família, originária do Senegal, chegou a Barcelona depois de já ter vivido alguns anos em Navarra. Houve uma série de embriões não compatíveis, outros que tinham a doença… A probabilidade de encontrar o certo era de menos de 18%. Os pais chegaram a perder a esperança, mas o ‘milagre’ veio a acontecer.
O embrião foi implantado em Oulimata, mãe das meninas, em 2018 e Sokhna nasceu no ano seguinte transplante só veio a ser feito sete anos depois, em abril deste ano, uma vez que se tinha de esperar que a criança crescesse para poder ser submetida ao transplante de medula.
Agora, Diama está livre da doença “e mais feliz do que nunca”. Ao El País, Oulimata diz que o processo teve duas dádivas: “Nós estávamos à espera há oito anos para podermos ter outro filho, e a Sokhna chegou, e também pode curar a irmã. Estamos extasiados”, conta.
Mas há mais boas notícias: o casal sempre quis ter mais filhos e por isso, em 2021, utilizaram outros dois embriões (que eram incompatíveis com Diama) que tinham sido congelados. Em julho deste ano, nasceram Mouhammed e Aisha, para aumentar a família.




