Por Pedro Alvito, Professor de Política de Empresa na AESE Business School
Há dias a falar com um amigo, ele contava-me a sua história empresarial. Foi contratado para uma determinada função e, tempos depois, selecionou alguém para ficar na sua dependência. Por motivos pessoais (de saúde), esteve de baixa e quando regressou ao trabalho e, sem qualquer explicação, o seu inferior hierárquico já lhe era superior! Uma história muito comum, infelizmente, no nosso meio empresarial.
Esta história, ao contrário do que possa parecer não é uma situação isolada, individual e irrelevante, mas pelo contrário mostra e muito o que se vive em Portugal. Dizem as “estatísticas” e diversos estudos que Portugal tem um problema de gestão; o que contrasta com o facto de termos universidades de excelência na área e o que não falta é profissionais. É que para mim o problema não está na gestão e nos conhecimentos de gestão, mas sim nos gestores e na sua prática, senão vejamos.
Que somos um país de individualistas que pouco acreditam no coletivo é outra crítica comum. Até é assim no futebol, em que baseamos mais o nosso sucesso na excelência individual do que na coletiva. E isso reflete-se nas empresas em que muitos gestores e CEO estão convencidos que são o Ronaldo e que são eles que sabem tudo e que podem resolver tudo.
Se virem qualquer boletim editado por qualquer Câmara Municipal irão encontrar, página sim página sim (e às vezes até várias vezes por página), fotografia do Presidente da Câmara em tudo o que é eventos, textos produzidos, notícias etc. São de facto boletins de one man show em que a pessoa é mais importante do que o facto em si. Mas o mesmo acontece em certas empresas (algumas de triste memória), em que o excesso de protagonismo de CEOs normalmente só revela uma coisa: atingiu o princípio de Peter’s e vive mais de procurar e de querer mostrar sucesso pessoal do que preocupar-se com verdadeiro interesse e sucesso da empresa ou instituição. Nestes casos, o CEO abandona muitas vezes a sua responsabilidade funcional e centraliza em si a decisão sobre tudo o que se passa na empresa. Ele é responsável de Marketing, de Recursos Humanos, de Projetos, de Inovação e de tudo o que lhe der destaque, pois não confia em ninguém e passa, por isso, os dias a discutir o tipo de letra do catálogo da empresa ou se a cor do embrulho do brinde que a empresa vai oferecer aos funcionários deve ser azul, laranja ou verde e, outras decisões de enorme importância estratégica. É também comum chamarem a si projetos da empresa que, ou são de facto os mais importantes, ou passam claramente a ser, passando todos os outros para segundo plano.
Para complementar a sua personalidade evita escolher pessoas brilhantes para com ele trabalharem porque essas tiram protagonismo e pior do que tudo atrevem-se a discutir as suas ideias. Cria estruturas flat em que todos dependem dele e por fim incentiva, naturalmente, a existência de “yes men e yes women”, pois todos os outros são, naturalmente, postos de lado pelo sistema. Para completar o quadro, não escrevem nada que os possa comprometer como procedimentos, normas, descrição de funções porque tudo é fluído e flexível. O que se disse não era bem assim e o que se prometeu não pode ser cumprido devido às circunstâncias; ou então, tudo não passou de um mal-entendido em que “me devo ter expressado mal”. Quando me dizem que certa organização é muito flexível para se adaptar rapidamente à mudança, desconfio. Por detrás da flexibilidade está muitas vezes tudo aquilo que descrevi atrás.
Um autor desconhecido dizia que o maior perigo numa empresa não é não ter ideias, mas sim ter ideias que ninguém ousa questionar. Talvez este seja o maior problema da gestão em Portugal, que bloqueia completamente as empresas no seu crescimento. “Numa sala onde todos pensam o mesmo, ninguém pensa muito”, dizia Walter Lippmann. E, infelizmente, quando toca a escolher os quadros de uma empresa ou instituição, o gestor incompetente só contrata quem pensa (ou diz pensar), da mesma forma que ele.
Chamo a esses gestores os emplastros da gestão. O importante é que se fale deles, têm que estar em todas as fotos, e não deixam ninguém “aparecer” nem por mérito nem por conhecimentos. Roubam as ideias, roubam o protagonismo e impedem o desenvolvimento dos outros e das empresas. Quantos casos conhecemos de excesso de protagonismo individual que liquidou empresas e instituições?




