«O SECTOR ONDE OPERAMOS ESTÁ NUMA TRANSFORMAÇÃO PROFUNDA»
Que particularidades destaca nas funções do CFO de uma empresa com as características dos CTT?
Os CTT são uma empresa com uma enorme história e uma marca com muito significado para os portugueses, nomeadamente ao assumirem-se como o prestador de serviço universal. Este contexto, associado à sua dimensão e impacto, obriga à necessidade de qualquer gestor da empresa, em particular o seu CFO, ter a todo o momento de antever o impacto das suas decisões, inclusive as mais pequenas e aparentemente inócuas. A relevância da nossa empresa e da nossa marca obriga-nos a desempenhar um papel importante a nível da sustentabilidade e da solidariedade social, mas também, e muito importante, com enorme ambição para o futuro, apostando na inovação e no contínuo desenvolvimento.
Como tem vindo a evoluir o papel do CFO na organização interna dos CTT?
A complexidade de uma empresa como os CTT não se compadece com a visão tradicional do CFO, com componente fortemente técnica, focado nos processos eminentemente financeiros, de produção e reporte de demonstração financeira, gestão de tesouraria e actividades de suporte. O CFO deve ser visto como um parceiro das unidades de negócio que, em conjunto com o CEO, colabora na elaboração do plano estratégico e, subsequentemente, controla a sua execução numa relação próxima com as várias áreas.
Para que tal aconteça é essencial que se assuma como alguém que procura soluções para os desafios do negócio, para a produção de informação e insights relevantes para todas as unidades da empresa, que gere o risco e é um agente de mudança na transformação da empresa. Esta mudança de visão é algo em que me empenho diariamente, directamente ou através da minha equipa.
Estratégia e gestão: como conjuga estas duas componentes enquanto CFO?
Ter uma estratégia clara é a chave para qualquer função. Temos de garantir que estamos sempre a convergir para o nosso objectivo, mesmo que o dia-a-dia nos faça divergir momentaneamente desse caminho. O CFO tem a responsabilidade acrescida de antecipar cenários e comunicar as correcções de rumo necessárias a todas as áreas. O desafio dos CTT, e consequentemente da minha função, é um desafio de execução, para implementar uma estratégia dupla de crescimento forte, em múltiplas áreas de negócio e de transformação das suas operações. Como tal, grande parte do meu tempo está alocado à gestão.
Contudo, por exemplo, neste contexto da pandemia de Covid-19, a estratégia tem uma enorme importância, pois permite manter um equilíbrio entre o curto e o longo prazo. No curto prazo, para assegurar que existe um programa de adaptação da empresa para reagir aos impactos da pandemia, protegendo os seus trabalhadores e mantendo um serviço que se revelou vital para que o País pudesse assumir as medidas necessárias; de longo prazo, porque nem todo o mal dura sempre, e é importante assegurar que a empresa sai reforçada da pandemia, aproveitando as oportunidades que esta criou, como a explosão do e-commerce, a aceleração da transformação digital, a alteração de quotas de mercado e a alteração de posicionamento. A evolução tecnológica está sempre presente nos CTT, pela própria natureza do seu negócio.
Como se consegue manter actualizado?
Ao longo dos anos em que fui desempenhando esta e outras funções, fui constatando a importância da disponibilidade para ouvir e aprender, da necessidade de reservarmos tempo para contactar com empresas e pessoas, internas e de sectores diversos, com a humildade para ser desafiado constantemente. Acho também de enorme importância não olharmos apenas para o nosso sector, mas também para outros como fonte de inspiração, seja positiva ou negativa. Existe, claro, algum investimento de tempo em pesquisa e leitura, largamente recompensado pelas janelas que nos abre, a nível pessoal e profissional. Gere uma equipa com quantas pessoas? Actualmente giro uma equipa de 440 pessoas que, além das funções típicas de CFO, inclui, nos últimos nove meses, a equipa de sistemas de informação.
O que mais o motiva como CFO dos CTT?
À medida que vamos crescendo como profissionais, há sempre uma área que nos desafia mais. Para mim é, sem dúvida, a capacidade de transformamos as empresas. No caso dos CTT esta é, sem dúvida, uma característica importante, pois o sector onde operamos está numa transformação profunda, num curto espaço de tempo. Esta contínua mudança obriga a transformar, não só as fontes de receitas, diversificando o negócio do correio, mas também todas as operações, processos e sistemas. E, claro, de enorme importância, as pessoas.
As empresas são feitas pelas pessoas, são um dos seus principais capitais. Nenhum processo de transformação pode ser bem-sucedido se os seus trabalhadores não estiverem envolvidos e disponíveis para não só acompanhar, mas ser também o motor da transformação. É um desafio multidisciplinar, muito para além das competências financeiras, e que, por isso, me traz enorme satisfação.
Como é habitualmente o seu dia-a-dia?
Levanto-me cedo, ponho-me a par das principais notícias do dia e ajudo na logística familiar inerente a quem tem dois filhos pequenos. Faço questão de levar um deles à escola todos os dias, e por volta das 9h estou nos CTT. Tipicamente tenho uma agenda com compromissos entre as 9h e as 20h, em contínuo, com a minha equipa e parceiros. É uma agenda pesada, mas em minha opinião importante para que possa dar tempo de antena a todos os que necessitam e para que eu próprio possa ouvir e acompanhar o que se passa. Dou muita importância ao contacto com as pessoas, inclusive de outras áreas, e estou sempre disponível para as ouvir e ajudar. Tento estar em casa antes de os meus filhos se deitarem. Gosto de cozinhar o meu jantar, ajuda- -me a lidar com o stress. Tento, às vezes, com pouco sucesso, fazer exercício duas vezes por semana.
Quais os maiores desafios para este ano que se adivinha complicado?
O principal desafio dos CTT é o seu contínuo crescimento, em especial no Expresso & Encomenda e Banco CTT. Associado a este crescimento, a capacidade de implementarmos a nossa estratégia de diversificação. Simultaneamente, estamos a executar a nossa agenda de transformação das nossas operações, em particular do correio, para garantir que conseguimos flexibilizar a nossa estrutura de custos e obter ganhos de produtividade, que nos permitam expandir a nossa margem operacional.
A Covid-19 trouxe, é claro, um conjunto de desafios adicionais. Houve um primeiro desafio, que temos vindo a superar, que foi o de manter as nossas pessoas em segurança ao mesmo tempo que garantíamos que a empresa se mantinha totalmente operacional como serviço essencial. No entanto, duas grandes mudanças adicionais se colocam: por um lado, a aceleração rápida do e-commerce em que queremos posicionar os CTT como parceiro de referência neste espaço; por outro, em sentido contrário, infelizmente, o impacto da desaceleração económica e do aumento do desemprego em Portugal, a que teremos que, obviamente, reagir.
Que riscos tem de ter em atenção no papel que desempenha? Uma vez que os CTT são uma empresa cotada e supervisionada por vários reguladores, governance, gestão de risco e compliance são temas que estão muito presentes em tudo o que fazemos. Tentamos gerir o risco nas suas diversas dimensões, sem perder agilidade nas decisões e com pragmatismo. Neste momento, dois riscos que assumem uma grande parte da minha agenda são os da liquidez e de cybersecurity.
Quais os atributos que um CFO dos tempos actuais tem mesmo de ter?
Um elemento que considero sempre de enorme vantagem para que possam tomar as melhores decisões é, sem dúvida, o conhecimento multidisciplinar.
Este tipo de visão multidisciplinar permite que um CFO possa desempenhar o papel de agente da mudança, com o devido distanciamento e a capacidade de olhar para a empresa e identificar as áreas que consegue acelerar para potenciar o desenvolvimento da empresa. Assim, além dos temas financeiros e estratégicos, tem também que ser um elemento-chave na transformação digital, iniciativas de sistemas de informação, data science, entre outras.




