O Pedro e o Monstro

“Era uma vez um menino chamado Pedro que encontrou um monstro, muito flácido e obeso, a caminho do Hospital da Troika onde ia ser internado.”

Filipa Pereira

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Paulo Carmona



Director da revista Executive Digest

Editorial publicado na edição de Novembro de 2012 da revista Executive Digest

Suspeitava-se de diabetes, aterosclerose, colesterol elevado, hipertensão, enfim tudo o que está associado a um consumo alimentar desenfreado. Hoje sabe-se que esteve a semanas de um ataque cardíaco potencialmente fatal.

O seu historial clínico também não ajudava; já tinha sido internado duas vezes nos últimos 30 anos, sempre por causa de desequilíbrios alimentares.

Desta vez tentou defender-se dizendo que tinha tido um problema de saúde, há uns quatro anos, e que o médico de então lhe disse que ele tinha de comer mais para combater a doença que então o afligia. Todos nós conhecemos a história do guloso que o que queria ouvir era o dentista a dizer-lhe para comer gelados. O arrancar o dente passava sempre ao esquecimento.

E o Pedro foi visitá-lo ao hospital e prometeu-lhe que ele ia tomar muito bem conta dele, com a ajuda dos médicos do Hospital da Troika e cumprindo escrupulosamente as suas receitas. Alguns dos medicamentos sabiam a óleo de fígado de bacalhau e teria de apanhar alguns choques eléctricos. O monstro estava muito assustado, mas a conversa do Pedro convenceu-o, para além de ele ser muito bom rapaz e muito bem-intencionado.

Assim, o Pedro foi nomeado tutor do monstro. Claro que o tratamento era muito doloroso e previa o pior. Por vezes o monstro atacava o Pedro como se fosse ele o responsável pelo seu sofrimento. O Pedro, por inabilidade ou simplicidade, não conseguia contrariá-lo e explicar-lhe que se estava a sofrer era por ser um comilão.

Entretanto, para além dos medicamentos e do tratamento de choque, era urgente o monstro entrar numa dieta rígida de redução calórica. Como o Pedro lhe dissera, antes de tomar conta dele, que já sabia onde actuar, o processo parecia fácil. Por isso qual não foi o espanto quando em vez de repensar e reestruturar toda a sua alimentação e respectivos gastos, simplesmente reduziu percentualmente a sua ingestão.

Em vez de mudar para mais vegetais, fruta e proteínas, mandou reduzir 15% no consumo de pizzas, massas, batatas fritas, etc. Claro que o monstro andava sempre com fome, sentia saudades do tempo em que comia à discrição e censurava cada vez mais o Pedro por lhe racionar a comida. E pior que isso, o colesterol continuava alto e não mudava de vida. A continuar assim, mais tarde ou mais cedo conseguiria iludir a dieta e voltar aos maus hábitos e novamente ao Hospital e ao sofrimento.

Será que o Pedro vai conseguir mudar-lhe radicalmente a dieta, fazendo com que o monstro volte a ser uma pessoa normal como alguns dos seus primos europeus?

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