O novo Playbook da hospitalidade: Como 2026 está a repensar o setor

Opinião de João Machado, Fundador da Savearth.

André Manuel Mendes
Fevereiro 20, 2026
12:38

Por João Machado, Fundador da Savearth

Em 2026, a hotelaria vive uma nova fase de maturidade. Já não basta oferecer conforto, boa localização ou um serviço irrepreensível. O que distingue verdadeiramente um hotel hoje é a forma como a experiência do hóspede é construída de forma integrada; entre operação, valores e impacto.



A hospitalidade está a tornar-se menos visível e mais inteligente. Menos centrada em “oferecer mais” e mais focada em funcionar melhor. Esta mudança não surge de tendências passageiras, mas de transformações profundas na forma como as pessoas viajam, descansam, consomem e atribuem valor às marcas.

 

A experiência do hóspede começa antes do quarto

O quarto continua a ser importante, mas deixou de ser o centro absoluto da experiência. O verdadeiro ponto de partida está na forma como o hotel entende o ritmo do hóspede. Luz, silêncio, temperatura, água, fluidez dos espaços e facilidade de utilização tornaram-se elementos tão determinantes como o design ou a decoração.

O bem-estar deixou de ser um serviço adicional e passou a ser um resultado esperado. Os hóspedes valorizam ambientes que favorecem descanso real, recuperação e equilíbrio não porque isso seja comunicado, mas porque é sentido ao longo da estadia.

Neste contexto, a experiência não é medida pela quantidade de comodidades, mas pela capacidade do hotel de se adaptar ao comportamento de quem o habita temporariamente.

 

Sustentabilidade como parte invisível da qualidade

A perceção de qualidade mudou. Sustentabilidade deixou de ser um atributo separado e passou a integrar a experiência de forma silenciosa. Os hóspedes notam quando os recursos são utilizados com inteligência, quando os espaços são coerentes e quando as escolhas parecem intencionais.

Esta nova leitura de valor não exige discursos ambientais explícitos. Pelo contrário, funciona melhor quando a responsabilidade é operacionalmente invisível. Quando o conforto é mantido, a experiência flui e os recursos são usados com eficiência, a confiança instala-se naturalmente.

Hoje, sustentabilidade e qualidade deixaram de competir entre si. Tornaram-se parte do mesmo sistema.

 

Tecnologia que simplifica em vez de complicar

A tecnologia continua a transformar a hotelaria, mas o seu papel está a mudar. Em vez de acrescentar camadas, o foco está em reduzir fricção, tanto para as equipas como para os hóspedes.

Processos mais simples, operações mais previsíveis e decisões mais bem informadas libertam tempo e atenção para aquilo que continua a ser insubstituível: a presença humana. Quando os sistemas funcionam em segundo plano, o serviço torna-se mais consistente e a experiência mais personalizada, sem esforço adicional.

A verdadeira inovação não é a que se vê. É a que permite que tudo o resto funcione melhor.

 

Eficiência como nova fronteira competitiva

Num setor pressionado por custos crescentes, exigências ambientais e expectativas elevadas, a próxima vantagem competitiva não virá apenas do preço ou da diferenciação estética. Virá da eficiência aplicada à experiência.

Os hotéis mais preparados para o futuro são aqueles que conseguem entregar o mesmo nível de conforto utilizando menos recursos. Isto implica compreender padrões reais de utilização, alinhar operações com comportamento e tomar decisões com base em dados concretos, sem comprometer a perceção de valor.

Eficiência, neste contexto, não significa restrição. Significa precisão.

 

O papel das startups na transição da hotelaria

À medida que a hotelaria entra numa nova fase, marcada por exigências mais elevadas em torno de eficiência, sustentabilidade e experiência do hóspede, torna-se claro que esta transformação não está a ser conduzida apenas pelos grandes grupos ou pelos operadores tradicionais. As startups têm assumido um papel cada vez mais relevante neste processo, ao trazerem novas formas de pensar a operação, os dados e o comportamento do hóspede.

Mais do que introduzir tecnologia, estas novas empresas atuam como catalisadoras de mudança. Trabalham em problemas muito específicos como o uso de recursos, a eficiência operacional ou o envolvimento do hóspede, e fazem-no de forma pragmática, adaptável e próxima da realidade no terreno. Essa abordagem permite testar, aprender e evoluir soluções de forma rápida, algo essencial num setor onde a experiência não pode ser comprometida.

 

É neste contexto que projetos inovadores surgem e ganham relevância. Não como soluções isoladas, mas como parte de um ecossistema mais amplo que está a ajudar os hotéis a alinhar sustentabilidade, performance e experiência. Ao focarem-se em padrões reais de utilização e comportamento, estas startups permitem que a eficiência deixe de ser apenas um objetivo operacional e passe a integrar a própria lógica da experiência do hóspede.

Para além de reduzir o consumo de recursos naturais como a água e a energia, este tipo de abordagem abre espaço para novos modelos de valor dentro dos hotéis, onde ganhos de eficiência podem ser convertidos em benefícios tangíveis para o hóspede, em maior liberdade operacional para as equipas e numa relação mais equilibrada entre conforto, responsabilidade e rentabilidade. É este tipo de contributo, vindo de fora das estruturas tradicionais, que está a ajudar a moldar a hotelaria para 2026.

 

Uma hospitalidade mais alinhada com o futuro

Em suma, a hotelaria de 2026 será definida menos pelo que promete e mais pela forma como funciona. Experiência, operação e valores deixam de ser áreas separadas e passam a fazer parte de um único sistema coerente.

Quando a eficiência apoia o conforto, quando a sustentabilidade reforça o bem-estar e quando a tecnologia trabalha em silêncio, a experiência do hóspede torna-se mais rica sem aumentar a complexidade.

É esta convergência que está a moldar a próxima geração de hospitalidade — mais consciente, mais eficiente e mais alinhada com as expectativas reais de quem viaja hoje.

 

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