O momento exige uma comunicação mais humana

«É tempo de comunicar bem interna e externamente e tem de se começar por “casa”», diz Marlene Gaspar, directora de Engagement e Digital da LLYC Portugal.

Executive Digest

Por Marlene Gaspar, directora de Engagement e Digital da LLYC Portugal

Vivíamos já num contexto volátil e incerto, complexo e ambíguo, mas a COVID-19 exponenciou cada uma destas características em tudo o que nos envolve e está também a provocar uma disrupção e aceleração de algumas das tendências que temos vindo a falar, bem como na transformação digital.



O confinamento é uma realidade que, além de representar uma enorme alteração à nossa forma de viver, trouxe também uma nova forma de trabalhar e de nos relacionarmos com a empresa e com as nossas pessoas. Esta reviravolta do local de trabalho mostra que se a linha entre o pessoal e profissional era ténue, agora deixou de existir. Darmos a conhecer a nossa casa, a nossa família, os nossos animais de estimação deixou de ser algo que acontecia quase por acidente para ser a nova forma de trabalhar.

Mas se trabalhar à distância é a realidade de grande parte das pessoas que trabalham em serviços, deparamo-nos também com muitas empresas de serviços e bens essenciais que estão a exigir um esforço sobrenatural aos seus profissionais para que continuem a trabalhar; e ainda com outras empresas que, face ao impacto da pandemia, se veem obrigadas a recorrer a planos de lay-off para assegurar a sua sobrevivência.

Em qualquer um dos casos, estamos perante uma realidade que coloca às empresas novos desafios: como manter o nível de compromisso dos colaboradores com a empresa numa altura em que trabalhamos de uma forma distante?; como manter motivadas as pessoas quando lhes é exigido que dêem prioridade à responsabilidade social acima do seu próprio bem-estar individual?; como recuperar o ânimo das equipas depois de uma época tão angustiante?

O momento exige uma comunicação mais humana do que nunca. É tempo de comunicar bem interna e externamente e tem de se começar por “casa”. Exige-se rapidez na resposta e que esta seja dada de forma sincera e transparente. É com base nesta premissa que traçámos algumas caraterísticas que a comunicação tem de ter nos dias de hoje:

Comunicação próxima. É preciso falar com a cabeça, mas também com o coração. Estar próximo implica que a comunicação assimile, compreenda e dê resposta às preocupações dos profissionais, usando uma linguagem clara, acessível e directa. O tempo dos discursos corporativos e abstratos faz parte do passado – a comunicação quer-se relacional, mais do que nunca;

Comunicação sincera. A comunicação tem de ser genuína e autêntica sob pena de não ser credível. Isso implica que é humano, em circunstâncias como as do actual contexto, poder expressar vulnerabilidade. O discurso do CEO da Marriott é um excelente exemplo disso mesmo. Partilhar as nossas inquietações face ao futuro quando desconhecemos o impacto que o contexto vai ter é humano e valorizado;

Comunicação sempre presente. É preciso assegurar uma comunicação fluída com as pessoas, sem nunca perder o contacto e de forma a manter toda a equipa informada sobre as decisões tomadas e seu impacto no negócio. A Edelman refere que “as entidades empregadoras são a fonte de informação mais credível sobre o coronavírus para os colaboradores. Mais que o Governo ou os media. Este insight revela uma oportunidade para as empresas – serem uma fonte de informação relevante para as suas pessoas;

Comunicação bidireccional. Dois grandes problemas que as empresas enfrentam na hora de comunicar são: falar sem escutar e falar sem responder. Garantir resposta e feedback é essencial. As empresas devem disponibilizar espaços próprios e os canais adequados para que as pessoas possam expressar os seus receios e as suas dúvidas, mostrando-se disponíveis para as ouvir e trabalhar em soluções;

Comunicação proactiva. Conhecer e monitorizar as preocupações das pessoas permite-nos detectar insights para planear acções de comunicação que antecipem necessidades e criem engagement. As grandes preocupações dos colaboradores, segundo o que apurámos* são: como ser produtivo e manter a concentração (74%), a segurança do seu posto de trabalho (53%) e como gerir e coordenar uma equipa à distância (47%). São dados relevantes para pensar em acções de comunicação com impacto para as pessoas;

Comunicação coerente. Tempos difíceis trazem uma oportunidade às empresas de mostrar a verdadeira cultura organizacional. Mais do que narrativas pomposas, são precisos relatos envolventes, com propósito e que consubstanciem a acção. É tempo de storydoing e não de storytelling;

Comunicação com perspectiva de longo prazo. O Mundo como o conhecíamos não será o mesmo. Nesse sentido, há uma oportunidade de gerar conteúdos e experiências que sirvam de “catarse colectiva” nos espaços de trabalho. Reagir agora não deve limitar-nos de pensar proactivamente no que virá depois.

Se a certeza de hoje é que a incerteza está presente, deixemos espaço para as empresas repensarem a forma como estão e vão comunicar com as suas pessoas – porque somos pessoas a falar com pessoas.

*Inquérito realizado pela equipa de Talent Engagement da LLYC Portugal, entre 23 e 26 de Março de 2020. Contou com um total de 106 respostas válidas

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.