O louco desafio de Rachel Bloom

A co-criadora, escritora, compositora e estrela do programa “Crazy Ex-girlfriend”, da CW, explica como abordou a saúde mental na televisão – e como gere a sua equipa sendo Millennial.

Por Laynie Rose, colaboradora da Fast Company

Oito anos depois de se tornar num verdadeiro êxito no YouTube com o vídeo “Fuck Me, Ray Bradbury”, uma sátira onde afirmava desejar o nonagenário escritor de ficção-científica, Rachel Bloom, apenas com 31 anos, tem levado o público para as profundezas das suas fantasias musicais através do seu programa “Crazy Ex-Girlfriend”, que ganhou um Emmy e que começou a sua quarta e última temporada o mês passado.

Com Aline Brosh McKenna (de “O Diabo Veste Prada”) como produtora e co-criadora, Rachel Bloom escreve, compõe e protagoniza num programa que mistura drama, comédia romântica e algumas canções originais que ficam no ouvido.

Fast Company: O “Crazy Ex-Girlfriend” é diferente de tudo o que passa neste momento na televisão. Tem o papel principal, o de Rebecca, que é uma mulher inteligente e talentosa, sofre de uma doença mental severa e expressa-se através de números musicais. Quando você e Aline Brosh McKenna começaram a trabalhar juntas, tinham noção do que queriam alcançar com o programa?

Rachel Bloom: Queria pôr à prova algumas das expectativas que as mulheres colocam em si próprias com base no que vêem na arte e nos meios de comunicação. O programa foi sempre criado com o objetivo de ser uma desconstrução das comédias românticas, das narrativas das princesas e, claro, das narrativas dos heróis.

FC: Como se consegue uma comédia sobre doença mental sem ridicularizar a personagem?

RB: A natureza do programa era mostrar que a Rebecca estava literalmente deprimida. Isso foi definitivamente autobiográfico porque tive ansiedade e depressão. O programa é sobre encontrar aquilo que nos faz realmente felizes, sobre a felicidade interior. Estamos sempre a ver a Rebecca com compaixão e a tentar compreender porque é que ela faz o que faz. Cada episódio é uma experiência. O tom é sempre o que é mais difícil de atingir, e em cada episódio há definitivamente momentos em que fazemos uma mudança porque algo parece não soar bem.

FC: Na temporada passada, a sua personagem tentou cometer suicídio, o que infelizmente é algo que tem estado muito nas notícias. Consegue ver este debate sobre a saúde mental a mudar?

RB: Espero que sim. Na pesquisa que fizemos sobre pessoas que querem cometer suicídio, elas disseram muitas vezes que não queriam morrer, queriam apenas que a dor parasse.

Quando estamos no meio de uma depressão, as palavras “saúde mental” são vistas como sendo palavras clínicas que parecem estar bem longe daquilo que sentimos.

Juntamente com o debate sobre saúde mental, devíamos estar a falar daquilo que sentimos – desânimo, tristeza, a sensação de estar presa na nossa própria vida. Precisamos de abordar isso num debate nacional.

FC: O que pensa que terá atingido com esse episódio?

RB: Algumas pessoas disseram-me que as inspirou a procurar terapia. Se isso aconteceu, de facto, então esse será provavelmente o melhor elogio que posso receber.

FC: Tem experiência em escrita e representação, mas é a primeira vez que cria um programa e lidera um elenco. Como aborda estas responsabilidades?

RB: Creio que um grande desafio deste emprego é aprender a ser chefe e perdoar-me quando discordo de alguém. É algo que tive de aprender enquanto mulher jovem. Sou o segundo membro mais jovem do elenco e uma das argumentistas mais jovens. Quando estamos em reuniões de produção e os outros muitas vezes têm mais 20 anos que nós, temos de encontrar um equilíbrio, sermos respeitosos, mas ao mesmo tempo manter a nossa opinião. Gosto de tratar toda a gente como colaboradores. Quando me sinto frustrada, tento ir para um sítio onde possa sentir-me frustrada sozinha. Todas as pessoas que passaram por uma posição de supervisão tiveram momentos em que não percebem porque é que os outros não compreendem as coisas. É preciso entender que estão todos a tentar fazer um bom programa.

FC: Falou no passado sobre estar em salas de argumentistas onde as pessoas tinham medo de revelar as suas ideias. Como é que, juntamente com Aline Brosh McKenna, impede que isso aconteça no “Crazy Ex-Girlfriend”?

RB: Em todas as salas de argumentistas há ideias que são postas de parte, mas penso que seja importante não olhar para as pessoas como desdém ou sarcasmo quando uma das suas ideias não funciona no ecrã. O papel do chefe é colocar a ideia de parte de maneira calma e humana. Rejeito as ideias de uma forma excessivamente simpática. «Percebo o que está a dizer. E agradeço.» A rejeição é algo que temos de aprender como escritores.

FC: Como é escrever e protagonizar um programa que envolve também pelo menos dois números musicais por episódio?

RB: A parte mais difícil é sermos um programa feito numa rede televisiva, por isso fazemos tudo ao mesmo tempo. Outros programas, como “Insecure”, o “Girls” e o “Broad City”, duram 30 minutos e têm temporadas de oito a 10 episódios. Acredito que todos escrevem, depois filmam e depois editam. Nós fazemos isso tudo ao mesmo tempo. Por isso de manhã vejo o esboço para os episódios seguintes, depois a representação e depois a edição. É muito rápido e muito difícil, e creio que nunca mais voltarei a passar por um processo destes.

FC: Está entre uma geração de comediantes, como Issa Rae, criadora de “Insecure”, e Bo Burnham, director de “Eight Grade”, que começaram no YouTube. Acredita que a plataforma continua a ser uma excelente incubadora de talentos?

RB: Era muito mais fácil tornar as séries na web conhecidas quando eu comecei. As ligações entre séries na web e programas de televisão mudaram. Há uma saturação real de comédia de sketch online, e é por isso que vemos sites como o Funny or Die ou o College Humor a diminuírem de tamanho. A internet continua a ser um excelente local para as pessoas fazerem arte, mas no que toca a ser conhecido – como ter sucesso com algo que não é muito temático – não tenho tanta certeza. No nosso programa não podemos ser temáticos porque fazemos o programa com antecedência. Temos talvez três ou quatro vídeos que se tornam virais [em cada temporada]. Mas ter conteúdos de qualidade não significa necessariamente que é suficiente, porque há muitos lá fora.

FC: O elenco é diversificado, da etnia ao tipo de corpo. Foi algo que planeou desde o início?

RB: Quando eu e a Aline estávamos a fazer pesquisa para o programa, uma das coisas que fizemos foi passear pela West Covina [o subúrbio de Los Angeles onde ocorre o “Crazy Ex-Girlfriend”]. É diversificado, mas ninguém fala disso. Cresci em Manhattan Beach: a nossa rainha do baile de finalistas era japonesa e o rei era chinês e não me lembro de ninguém nos vir dar palmadinhas nas costas e dizer “Oh, somos tão diversificados”. Penso que muitos argumentistas de Hollywood vêm da Costa Leste, principalmente de locais como Long Island onde há mais segregação – embora não oficial – por classe e raça. Quem cresce no sul da Califórnia tem uma experiência diferente.

FC: Tem sido embaixadora da igualdade de salário na indústria do entretenimento. De que forma abordou a questão no seu próprio programa?

RB: Todos os directores do programa são mulheres, e todas temos noção da disparidade de salários. Estamos sempre a monitorizar isso, principalmente durante as negociações com os actores. A verdade é que aprendi a olhar para os meus próprios preconceitos. Olhando para uma pessoa branca e outra negra, aprendi a perguntar porque é que uma delas recebe mais? É por causa da sua experiência ou é porque tem um advogado melhor? Temos de dar a todos as mesmas oportunidades de sucesso, e depois a bola fica do lado deles.

Este artigo foi publicado na edição de Outubro de 2018 da Executive Digest.

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