Imigrantes sem antecedentes criminais são mantidos em condições degradantes nos novos centros de detenção do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) nos EUA, onde Donald Trump pretende albergar até 80 mil pessoas simultaneamente para acelerar a sua política de deportação. Relatórios de ativistas e organizações de direitos humanos indicam que, em 2025, 31 detidos morreram sob custódia, com mais de 1.200 cujo paradeiro é desconhecido, num dos períodos mais negros da história recente da imigração americana.
Mary Kapron, investigadora da Amnistia Internacional, visitou um dos centros na Florida em setembro último e descreveu ao jornal espanhol ‘El Mundo’ as condições “bárbaras”, com reclusos algemados de mãos e pés, confinados em estruturas metálicas ao ar livre expostos ao sol e à humidade, sem acesso regular a comida ou água, e sem possibilidade de comunicação com advogados. “As condições são terríveis e desesperadoras, porque não sabem o que lhes vai acontecer. Estes ataques contra imigrantes são sem precedentes”, afirmou.
As instalações, algumas apelidadas de “Alcatraz dos Jacarés”, apresentam arame farpado por todo o perímetro, celas semelhantes a gaiolas e casas de banho insalubres junto às camas. A porta-voz do Departamento de Segurança Interna (DHS), Tricia McLaughlin, rejeitou as críticas, defendendo que os detidos recebem cuidados médicos, dentários e psicológicos completos e que o ICE mantém padrões mais elevados do que a maioria das prisões nos Estados Unidos.
Heather Hogan, especialista da Associação Americana de Advogados de Imigração, alerta para a sobrelotação extrema e a negligência médica em muitos centros, incluindo Fort Bliss, no Texas, considerado por ativistas como “um campo de concentração”. “Estão a prender qualquer pessoa que consigam, incluindo idosos e doentes graves. Muitos não recebem medicação e algumas pessoas adoecem ou morrem”, declarou ao ‘El Mundo’. O suicídio e o impacto psicológico severo são frequentes, pois o sistema visa forçar pedidos de deportação voluntária, mesmo com processos de asilo em curso.
O negócio por detrás da detenção também é significativo. Cerca de 90% das vagas são geridas pelo setor privado, com contratos multimilionários com empresas como o GEO Group, que já contou com Tom Homan, atual ‘czar da fronteira’ de Trump, como conselheiro. Dez dos 31 mortos em 2025 ocorreram em instalações geridas por esta empresa. Estados governados por republicanos beneficiam financeiramente da expansão dos centros, como é o caso da prisão de McCook, no Nebraska, transformada em centro de detenção mediante contratos de milhões de dólares.
Segundo dados do Transactional Records Access Center (TRAC), a 30 de novembro de 2025 estavam detidos 65.735 imigrantes, dos quais 73,6% sem antecedentes criminais. A aprovação da nova lei fiscal, conhecida como One Big Beautiful Bill, prevê 70 mil milhões de dólares para o ICE, reforçando a capacidade de Trump em manter a política de deportação intensiva. Especialistas alertam que 2026 poderá superar 2025 em número de detenções e severidade das condições.














