Muito além de um escândalo de abusos sexuais envolvendo elites globais, a rede criada por Jeffrey Epstein começa a ser descrita como uma das mais sofisticadas operações de espionagem das últimas décadas. Segundo revelações citadas pelo ‘El Mundo’, o esquema terá aplicado a lógica russa do kompromat — colocar figuras influentes em situações comprometedoras para posterior controlo — a uma escala sem precedentes.
Fontes de inteligência ouvidas pelo ‘Mail on Sunday’ sustentam que Epstein terá coordenado “a maior operação de kompromat do mundo”, alegadamente ao serviço do KGB. O financeiro americano teria fornecido jovens mulheres a figuras poderosas internacionais, com o objetivo de criar material de chantagem, possivelmente em benefício dos serviços secretos russos e, segundo algumas suspeitas, também israelitas.
A ligação a Robert Maxwell
O rasto remonta à relação entre Epstein e Robert Maxwell, magnata dos media britânico que morreu em 1991 após cair do seu iate, numa circunstância que nunca dissipou totalmente as suspeitas. Maxwell, de origem judaico-checoslovaca, é apontado como colaborador tanto do KGB como do Mossad, nomeadamente por ter facilitado a emigração de judeus soviéticos para Israel nos anos 1970, refere o ‘El Mundo’.
Maxwell terá sido apresentado a Epstein por um magnata do petróleo russo ligado ao Kremlin. Juntos, terão participado em operações de lavagem de dinheiro de Moscovo no Ocidente. Após a morte de Maxwell, a sua filha Ghislaine aproximou-se de Epstein, tornando-se cúmplice e parceira. O desaparecimento dos fundos de pensões desviados pelo magnata britânico é apontado por várias fontes como o elo financeiro que consolidou essa ligação.
Rússia, Trump e o círculo de Putin
Documentos tornados públicos incluem milhares de referências à Rússia e mais de mil menções a Vladimir Putin. Está registado que Epstein se encontrou várias vezes com o líder russo, mesmo depois da sua primeira condenação por crimes sexuais. Em mensagens privadas, o financeiro vangloriava-se de poder fornecer ao Kremlin informações sobre Donald Trump, através de contactos com o embaixador russo em Nova Iorque e com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergey Lavrov.
Essas trocas ocorreram antes da cimeira de 2018 entre Trump e Putin, após a qual o então presidente americano declarou não haver provas de interferência russa na eleição dos EUA. Epstein surge ainda associado a Masha Drokova, antiga dirigente de um movimento juvenil pró-Putin que mais tarde fundou uma empresa tecnológica em São Francisco, vista por serviços de informação como uma possível fachada para obtenção de segredos tecnológicos.
Um livro publicado em 2021 pelo jornalista Craig Unger sustenta que Epstein terá atuado como intermediário entre Trump e o círculo de Putin, recorrendo ao crime organizado russo para fornecer jovens mulheres a figuras influentes, incluindo o futuro presidente dos Estados Unidos.
Dossiers comprometedores em Londres
No Reino Unido, documentos revelam que Epstein prometeu ao então príncipe André uma mulher russa de 26 anos, descrita como “bonita e de confiança”. O biógrafo Andrew Lownie confirmou que jovens provenientes de Moscovo eram levadas às residências do príncipe em Inglaterra e escoltadas de volta ao aeroporto após os fins de semana.
Lownie considera plausível que o Kremlin detenha um dossier comprometedor sobre o príncipe André, eventualmente com provas fotográficas, que poderia ser usado para chantagear a família real britânica e, por extensão, o próprio Reino Unido.
Os documentos divulgados indicam ainda pagamentos de 75 mil dólares feitos por Epstein a Lord Mandelson, antigo embaixador britânico nos Estados Unidos, que se demitiu em novembro passado devido à proximidade com o financeiro. Mandelson foi uma figura central do New Labour e conselheiro próximo de Tony Blair.
Mossad e uma teia global de sombras
Outros registos apontam para a convicção do FBI de que Epstein teria ligações ao Mossad, alegadamente treinado por Ehud Barak, antigo primeiro-ministro israelita, com quem mantinha contacto frequente. No conjunto, estas revelações desenham uma teia internacional que confere uma dimensão geopolítica e de espionagem ao caso Epstein, muito além das práticas criminosas que levaram à sua morte em 2019 numa prisão americana.






