O fim da inocência

Opinião de Carlos Lourenço, Professor do ISEG

Executive Digest
Julho 16, 2025
11:52

Por Carlos Lourenço, Professor do ISEG

Omitíamos com frequência que esta globalização é também um espelho da lógica do poder. Porque nos parecia, e parece-nos ainda, que dela beneficiamos, porque o enfoque está ainda no consumo e no PIB, sem fazermos bem as contas para o impacto nos recursos naturais e nas alterações climáticas.

As análises económicas menos que ortodoxas que se esforçam agora para dar sentido à ofensiva tarifária lançada pela atual Administração norte-americana, e que passam, em geral, pela reindustrialização, internamente, de determinados sectores, podem já ser elas mesmas um sinal do fim da inocência: a globalização já não é um milagre da mão invisível mas fruto de políticas comerciais orientadas pelos Estados.

Com certeza que a imposição de taxas às importações para proteger indústrias nacionais, corrigir desequilíbrios comerciais ou responder a práticas desleais, sem ética ou particularmente destrutivas do ponto de vista ambiental, pode fazer sentido se alargarmos o plano de análise para lá do excedente do consumidor. Mas quando a Administração Trump, qual lança-chamas em punho, dispara com tarifas à escala global, com a mira especialmente apontada à China, está em jogo outra coisa. No caso da China, que representa cerca de um terço da produção industrial mundial, parece tratar-se, sobretudo, de poder. Por via da produção e, em particular, do emprego.

A política comercial norte-americana pode ter como alvo a vulnerabilidade da China face à sua gigantesca força de trabalho industrial. De forma coloquial, nas últimas décadas, a China como que se tornou, em muitas categorias de produtos, e passe-se o exagero propositado, a “fábrica do mundo”, o fornecedor dos mercados consumidores ocidentais. Em troca, alcançou crescimento económico, urbanizou-se e retirou milhões da pobreza. Mas criou também uma forte dependência do emprego industrial orientado para a exportação.

Deste ponto de vista, as tarifas norte-americanas não são só um instrumento económico protecionista. São também uma forma de pressão sobre a estabilidade social e política da China, onde o pleno emprego continua a ser um dos pilares de legitimidade do regime, o que, aliás, vem sendo recentemente posto em causa por via do desemprego crescente, segundo a BBC, entre outras fontes. Ao dificultar o acesso ao mercado norte-americano, o maior do mundo e o mais importante para a China, corre-se o risco de parar fábricas, deslocar trabalhadores e gerar tensões sociais. Um pesadelo para Pequim.

Este tipo de geoeconomia não é, aliás, novo, e não o é certamente na política norte-americana. Ulysses S. Grant, primeiro presidente após a guerra civil norte-americana, disse num discurso que dali a 200 anos (lá para o ano 2069), período de tempo, segundo ele, semelhante ao que a Inglaterra precisou para fazer o mesmo, a América havia de aderir ao comércio livre, sem tarifas.

O que hoje é revelador na política norte-americana e na sua comunicação, diríamos, sem cerimónias, no limiar da boçalidade, é a forma tão descarnada com que rompe com a visão dominante do comércio internacional como motor de ganhos mútuos e eficiência. Ao invés disso, evidencia o que tantas vezes ignoramos ou omitimos, de forma mais ou menos intencional: que o comércio, susceptível como tudo o resto de ser instrumentalizado, também gera assimetrias. Neste caso, o consumo nos Estados Unidos é uma arma negocial e o emprego na China um alvo estratégico.

Dito isto, o consumidor norte-americano também pode vir a ser fortemente prejudicado, uma vez que beneficia de baratas importações chinesas. O mesmo pode suceder com as empresas, sobretudo as muito dependentes de componentes chineses. Ainda assim, nos bastidores republicanos por detrás da política norte-americana, apostar-se-á que a China, dependente que está das exportações e do emprego industrial, tem mais a perder.

Mas, como as eleições norte-americanas intercalares do próximo ano se encarregarão porventura de revelar, pode haver consequências a muito longo prazo. De entre todas elas, sobressai esta sensação de que a era da globalização inocente e inofensiva parece ter terminado. Com tudo o que isso implicará.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.