Peter Drucker, o autor e consultor austro-americano que definiu a gestão na segunda metade do séc. XX, escreveu 39 livros. Curiosamente, a palavra “liderança” não aparece em nenhum dos títulos que publicou.
Em 1954, no seu sucesso “The practice of management”, Drucker sugeriu o porquê: «O primeiro livro sistemático sobre liderança, o “Ciropedia”, de Xenofonte (ele próprio um excelente líder de homens), continua a ser o melhor livro sobre o assunto.»
A “Ciropedia” é a biografia de Ciro, o Grande, que usou a conquista militar e uma gestão iluminada para criar o primeiro Império Persa cerca de 540 a.C. Xenofonte, o ateniense, escreveu a biografia quase 200 anos antes e tornou-se parte do programa de liderança durante séculos: no seu livro de 2001, “Xenophon’s prince: Republic and empire in the Cyropaedia”, Christopher Nadon, professor no Claremont McKenna College, escreve que Alexandre, o Grande e Júlio César leram a “Ciropedia” e que o livro foi uma forte influência na obra “O príncipe” de Maquiavel.
Thomas Jefferson tinha duas cópias na sua biblioteca.
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Então o que sabemos sobre Xenofonte? A descrição que Drucker faz dele enquanto «excelente líder de homens» pode basear-se na própria biografia de Xenofonte. Com o título “Anábase”, é a história de uma campanha militar infame, do aparecimento de um líder relutante, mas talentoso, e de uma retirada estratégica que salvou um exército de 10 mil mercenários nas profundezas do território inimigo.
Antes de se tornar escritor, Xenofonte estava incorporado no seu exército, conhecido como os “Dez Mil”. Por volta de 400 a.C., Ciro, o Jovem, parente distante de Ciro, o Grande, recrutou a força como parte de uma campanha militar. Ciro foi generoso nos favores e promessas, mas não mencionou que o seu verdadeiro objectivo era depor o seu irmão, Artaxerxes II, que herdara o trono da Pérsia.
Ciro foi morto na primeira batalha contra Artaxerxes. Com a guerra perdida, o grupo de generais e capitães dos Dez Mil tentou negociar um salvo-conduto até casa – e foram traídos por aliados e massacrados. Assim, os mercenários gregos ficaram sem líderes e sem provisões. «Separados de Hellas por mais de mil quilómetros, nem tinham um guia que lhes indicasse o caminho», reportou Xenofonte, que escreveu “Anábase” na terceira pessoa. «Rios intransponíveis atravessavam-se no seu caminho e rodeavam-nos.
Traídos até pelos asiáticos, com quem marcharam para o ataque, ficaram totalmente isolados.» Uma das razões por que Drucker evita falar directamente na liderança é por acreditar ser uma questão de aptidão natural e atitude inata. «A liderança é de suma importância. Não há substituto para ela», escreveu em “The practice of management”.
«Mas a liderança não pode ser criada ou promovida. Não pode ser ensinada ou aprendida.» Parece que Xenofonte tinha aptidão e atitude para a liderança. «Do que estou à espera? De um general que dê ordens, e de que cidade?» pensava, enquanto os Dez Mil andavam sem rumo. «Fico à espera até ser mais velho? Talvez nunca chegue a velho, se hoje me trair aos meus inimigos.» E por isso, decidiu dar um passo em frente e oferecer a sua análise ao dilema.
Xenofonte lembrou as tropas que Artaxerxes pediu a cabeça e uma mão do irmão pregadas numa cruz e sugeriu que todos eles deviam esperar um destino ainda pior. «Não há dúvida de que o nosso objectivo é evitarmos ao máximo cair nas suas garras», afirmou. E urgiu os oficiais a agirem como modelos para as tropas.
«Os soldados lá fora têm os olhos postos em nós», afirmou Xenofonte. «Se pensarem que somos fracos, tornar-se-ão cobardes; mas se lhes mostrarmos que nos estamos a preparar para atacar o inimigo, dando o exemplo – eles seguir-nos-ão. Eles imitar-nos-ão.» Na madrugada do dia seguinte, com os oficiais à sua volta, Xenofonte, totalmente vestido para a batalha, abordou os Dez Mil. Disse aos soldados que os deuses estavam com eles, apontou os desafios futuros e explicou o que poderiam e iriam encontrar.
«Nenhum rio é totalmente intransponível», afirmou. «Independentemente das dificuldades que este apresenta à nossa frente, basta seguir na direcção da nascente e podemos atravessá-lo sem molhar muito mais que os tornozelos.» Xenofonte apresentou o seu plano: incendiar as carroças e tendas, largar tudo menos as armas, os alimentos e a bebida e marchar para casa, todos juntos. «Se alguém tiver um plano melhor, não precisamos de adoptar o meu», indicou.
Foi feita uma votação, e todos os soldados concordaram com o plano e com a sua adopção. O resto de “Anábase” apresenta lições semelhantes para os líderes que estão à frente de grandes esforços de mudança, como transformações empresariais. Xenofonte descreve os talentos e ferramentas específicos necessários para proteger o exército durante a sua longa marcha e como seriam obtidos.
Detalhou as negociações precisas para obter salvos-condutos pelos vários reinos da Pérsia e as tácticas de combate usadas para minimizar as perdas do exército e continuar em frente quando as negociações falhavam ou não eram opção. Ao longo de toda a obra “Anábase”, há um segmento de liderança humilde – usando um termo de Edgar e Peter Schein.
Xenofonte sugere ideias; não as ordena. Pede ideias que sejam mais adequadas do que a sua; não assume que as suas são as melhores. E, em várias ocasiões, quando se apercebe que o exército está a ir na direcção errada, Xenofonte oferece-se para recuar e passar o papel de líder a outros. Peter Drucker escreve que «três mil anos de estudos, exortações e conselhos não parecem ter aumentado a oferta de líderes em qualquer dimensão relevante ou feito com que as pessoas aprendessem a ser líderes».
No entanto, tendo em conta que recomendou ler Xenofonte (e também “As Epístolas de São Paulo”), não sei se ele não acredita que uma pessoa pode ensinar-se a si mesma a ser um líder melhor.




