O debate sobre sustentabilidade digital tem sido dominado, nos últimos anos, pela mesma narrativa: a inteligência artificial é a principal culpada do aumento do consumo energético nos centros de dados. A ideia é intuitiva e até mediaticamente eficaz, mas, ao observar todo o setor, esta perceção revela-se incompleta e pode mesmo ser considerada enganadora.
Os dados mais recentes mostram que a IA, apesar do seu crescimento acelerado, continua a representar apenas uma fração do consumo energético global dos centros de dados. Em 2024, estima-se que a inteligência artificial tenha sido responsável por cerca de 10% a 15% do consumo total, enquanto os sistemas de TI generalista (o que se poderia designar por “computação mainstream”) representam entre 85% e 90%. Mais ainda: as projeções para o final da década sugerem que a IA poderá chegar aos 20% a 30%, mas continuará longe de superar o peso da computação tradicional.
Esta discrepância levanta uma questão: porque continuamos a concentrar quase toda a atenção mediática e regulatória no impacto energético da IA, quando a maior parte do consumo pertence, na realidade, a um universo mais silencioso e menos visível?
Afinal, a chamada “computação mainstream” inclui tudo o que sustenta o funcionamento digital da economia global e é, atualmente, o maior consumidor estrutural de energia no ecossistema dos centros de dados. Como a IA é nova, visível e disruptiva, é compreensível que a narrativa tenda para esse lado; no entanto, isso não deveria impedir aquilo que já é possível: otimizar uma parte substancial do impacto energético da TI mainstream com tecnologias e práticas já comprovadas.
Além disso, esta questão não deve ser vista apenas do ponto de vista tecnológico; no fim de contas, trata-se de algo estratégico, pois o setor dispõe de conhecimento e ferramentas suficientes para reduzir significativamente o consumo energético. O desafio passa, portanto, por reorientar prioridades e alargar o foco para além do fenómeno mediático da inteligência artificial. Claro que a IA tem um impacto que não deve ser desvalorizado: é uma tecnologia que, com o seu crescimento e perfis de carga flutuantes resultantes do treino de modelos, coloca desafios reais, mas a discussão torna-se superficial e ineficaz quando a eficiência do resto do ecossistema digital é tratada como secundária. Assim, não devemos assumir que temos de escolher uma ou outra opção; o que precisamos é da capacidade de gerir ambas de forma integrada, criando uma coexistência em que seja possível escalar a inteligência artificial e, simultaneamente, reduzir o desperdício energético do sistema já existente.
Por último, esta questão não deveria ser encarada apenas pela vertente ambiental, pois é também um fator económico e competitivo: as organizações que otimizarem todo o seu funcionamento digital beneficiarão de menores custos operacionais, maior agilidade na implementação de serviços e maior capacidade de escalabilidade, contribuindo de forma decisiva para o seu desempenho empresarial.
Por isso, enquanto a discussão pública permanecer centrada quase exclusivamente na IA e ignorar o maior consumidor estrutural de energia do ecossistema digital, continuará a existir o “elefante na sala dos servidores”, onde residem as maiores oportunidades de poupança de energia.



