Vladimir Putin, uma vez mais, sublinhou o poderio nuclear da Rússia no contexto do conflito na Ucrânia, na sequência de testes realizados a um novo sistema de mísseis balísticos que devia fazer os inimigos de Moscovo parar e pensar. No anúncio da invasão, há oito semanas, o presidente russo alertou o Ocidente que qualquer tentativa de travar o seu caminho “levará a consequências nunca encontradas na história” – dias depois, ordenou para que as forças nucleares da Rússia fossem colocadas em alerta máximo.
O secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, referiu que “a perspectiva de um conflito nuclear, antes impensável, agora está de volta ao reino das possibilidades”.
Em caso de um lançamento de uma arma nuclear, como funciona a cadeia de comando da Rússia?
Um documento de 2020, chamado “Princípios Básicos da Política de Estado da Federação Russa sobre Dissuasão Nuclear”, diz que é o presidente russo que toma a decisão de usar armas nucleares. Uma pequena pasta, conhecida como ‘Cheget’, é mantida sempre perto do presidente, ligando-o à rede de comando e controlo das forças nucleares estratégicas da Rússia. O ‘Cheget’ não contém um botão de lançamento nuclear mas transmite ordens de lançamento ao comando militar central – o Estado-Maior.
Se Putin der a ordem nuclear, o que acontece?
O Estado-Maior russo tem acesso aos códigos de lançamento e tem dois métodos de lançamento de ogivas nucleares – pode enviar códigos de autorização para os comandantes de armas individuais, que então executam os procedimentos de lançamento. Há também um sistema de back-up, conhecido como ‘Perimetr’, que permite ao Estado-Maior iniciar o lançamento de mísseis terrestres diretamente, contornando todos os postos de comando imediatos.
A ordem de “alerta máximo” de Putin tornou um lançamento mais provável?
Depois da ameaça de Putin, a 27 de fevereiro, que as forças de dissuasão da Rússia, nas quais estão incluídas as armas nucleares, estarão em alerta máximo, o Ministério da Defesa local apontou que as Forças Estratégicas de Mísseis, as Frotas do Norte e do Pacífico e o Comando de Aviação de Longo Alcance fossem colocados “em dever de combate reforçado”, um termo que não aparece na doutrina nuclear da Rússia, algo que deixou os especialistas militares confusos sobre o seu significado. Pavel Podvig, investigador sénior do Instituto das Nações Unidas para Pesquisa de Desarmamento em Genebra, apontou que a ordem pode ter ativado o sistema de comando e controlo nuclear da Rússia, essencialmente abrindo canais de comunicação para qualquer eventual ordem de lançamento. Ou, em alternativa, pode significar apenas que os russos expandiram o pessoal nas suas instalações militares.
A Rússia tem regras sobre o uso de armas nucleares?
A doutrina de 2020 apresenta quatro cenários que podem justificar o uso de armas nucleares russas:
– o uso de armas nucleares ou armas de destruição em massa contra a Rússia ou seus aliados;
– dados que demonstrem o lançamento de mísseis balísticos contra a Rússia ou seus aliados;
– um ataque a instalações governamentais ou militares críticas que prejudicariam a capacidade das forças nucleares russas de responder a ameaças;
– o uso de armas convencionais contra a Rússia “quando a própria existência do Estado está em perigo”.
Quais são as capacidades nucleares da Rússia?
A Federação de Cientistas Americanos estimou que a Rússia tenha 5.977 ogivas nucleares, mais do que qualquer outro país. Destes, 1.588 estão implantados e prontos para serem usados – os mísseis podem ser disparados de terra, por submarinos e por aviões.
Putin supervisionou um teste coordenado das forças nucleares da Rússia a 19 de fevereiro. A 20 de abril, surgiu na televisão a ser informado pelos militares que o míssil balístico intercontinental ‘Sarmat’, que estava em desenvolvimento há anos, tinha sido testado com sucesso pela primeira vez. As forças nucleares da Rússia vão começar a receber o novo míssil “no outono deste ano”, segundo garantiu um alto funcionário militar à agência de notícias russa ‘Tass’.
Os Estados Unidos, por sua vez, adiaram no mês passado um teste de lançamento de rotina do seu míssil balístico ‘Minuteman’ num aparente esforço para diminuir as tensões com a Rússia.
A Rússia já usou uma arma nuclear em guerra?
Não. Até hoje, o único uso de armas nucleares durante um conflito foi em 1945, no final da II Guerra Mundial, quando os Estados Unidos lançaram bombas atómicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki.










