O novo Presidente do Chile, o ultraconservador José Antonio Kast, que tomou posse na quarta-feira, enfrenta desde o início do mandato pressões divergentes de China e dos Estados Unidos.
O chefe de Estado terá de decidir se cede às pressões de Washington para cancelar um projeto de cabo submarino de fibra ótica destinado a ligar a China ao Chile através do Pacífico ou se relança a iniciativa defendida pelo maior parceiro comercial do país sul-americano, arriscando tensões com os Estados Unidos.
O projeto, denominado “Chile-China Express”, prevê o transporte de dados digitais ao longo de quase 20 mil quilómetros sob o oceano Pacífico entre Hong Kong e o porto chileno de Valparaíso, permitindo a Pequim reduzir a dependência de rotas de internet que passam pela América do Norte.
Contudo, o Departamento de Estados dos EUA considera o projeto uma ameaça à segurança regional.
O cabo submarino, proposto pela empresa estatal chinesa China Mobile, foi inicialmente aprovado em janeiro pelo então ministro dos Transportes do Governo de esquerda de Gabriel Boric.
Dois dias depois, porém, o Governo cancelou a iniciativa face a pressões de Washington, que sancionou três responsáveis chilenos, incluindo o ministro, revogando os respetivos vistos para os Estados Unidos.
Um cabo chinês “impede basicamente os Estados Unidos de ver o que acontece no tráfego regional de dados”, explicou o especialista em telecomunicações Jonathan Frez, professor da Universidad Diego Portales, citado pela agência France Presse.
Segundo o especialista, o projeto permitiria à China ligar-se diretamente à América Latina, incluindo o Brasil, também membro dos BRICS, bloco que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul e que se expandiu posteriormente a países como Egito, Etiópia, Irão, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Indonésia.
O Presidente chileno de extrema-direita terá agora de manter um equilíbrio entre os laços comerciais do Chile com a China e a intenção de reforçar as relações com o Presidente norte-americano, Donald Trump, que o recebeu na semana passada na Florida durante a cimeira “Escudo das Américas”, que reuniu líderes conservadores latino-americanos.
Kast, o líder mais à direita desde a ditadura militar de Augusto Pinochet, foi eleito em dezembro com a promessa de combater a criminalidade e a imigração ilegal, temas familiares para a administração Trump.
Washington pretende apoiá-lo nessas áreas, mas também “impedir que a China tenha acesso aos recursos e mercados” chilenos, afirmou o especialista em relações internacionais Gilberto Aranda, da Universidade do Chile, citado pela agência de notícias France-Presse.
O académico considera que as sanções impostas aos três responsáveis chilenos, incluindo o ministro dos Transportes, constituem “um aviso” ao novo Governo de Kast.
A China é o principal destino das exportações chilenas, que atingem cerca de 38 mil milhões de dólares (33 mil milhões de euros), sobretudo cobre e lítio, mas também produtos agrícolas como cerejas.
O Chile está atualmente ligado a pelo menos três cabos submarinos internacionais, todos conectados à América do Norte.
Governos de direita e de esquerda têm procurado posicionar o país como um polo tecnológico — o Chile possui a sexta ligação à internet mais rápida do mundo, segundo o índice Speedtest Global Index.
O cabo Humboldt Cable, com 14.800 quilómetros e atualmente em construção entre Valparaíso e Sydney, será o primeiro a ligar a América do Sul à região Ásia-Pacífico e está a ser desenvolvido em parceria com a Google.
Especialistas citados pelo jornal económico chileno Diario Financiero consideram que, caso o projeto Chile-China Express seja abandonado por Santiago, Pequim poderá transferi-lo para o Peru, segundo maior destinatário de investimento chinês na América Latina.
Nesse caso, a decisão passaria para o próximo Presidente peruano, a ser eleito nas eleições previstas para abril.





