Nova era do comércio internacional já tem nome: FMI explica a quinta fase da globalização

Numa nota, o FMI analisou as cinco eras do comércio internacional, desde 1870 até à atualidade: 1870-1914 (Revolução Industrial), 1914-1945 (guerras e protecionismo), 1945-1980 (Câmbio fixo-Bretton Woods), 1980-2008 (grande liberalização ou hiperglobalização) e 2008 até hoje (‘slowbalization’)

Francisco Laranjeira
Fevereiro 14, 2023
15:11

O Ocidente registou nos últimos dois séculos momentos turbulentos – além de duas guerras mundiais e outros conflitos, a economia também registou um salto gigantesco, iniciado com a Revolução Industrial.

As melhorias nos transportes naqueles anos reduziram a ‘distância’ entre economias e regiões, permitindo que a troca de mercadorias fosse rentável e possível. Mas, apesar de tudo, o comércio internacional e a sua evolução não têm sido lineares desde então, e nem parece que o serão no futuro, apesar dos benefícios que gera em termos agregados. A prova dessa falta de linearidade é a nova era que o comércio internacional está a entrar – para os economistas do FMI (Fundo Monetário Internacional), estamos a despedir-nos da hiperglobalização para entrar na ‘slowbalization’, relatou o jornal espanhol ‘El Economista’.

Numa nota, o FMI analisou as cinco eras do comércio internacional, desde 1870 até à atualidade: 1870-1914 (Revolução Industrial), 1914-1945 (guerras e protecionismo), 1945-1980 (Câmbio fixo-Bretton Woods), 1980-2008 (grande liberalização ou hiperglobalização) e 2008 até hoje (‘slowbalization’).

– Industrialização ou Segunda Revolução Industrial (1870-1914). A era da industrialização foi um período em que o padrão-ouro facilitou o comércio mundial, dominado por Argentina, Austrália, Canadá, Europa (a Bélgica destacou-se nesse período) e Estados Unidos. Essa era foi amplamente impulsionada pelos avanços no transporte que reduziram os custos comerciais e aumentaram os volumes de mercadorias entre os países.

“Quando falamos em globalização — um processo que não afeta apenas a economia —, talvez não saibamos que ela constitui a fase mais avançada de um processo de expansão progressiva dos circuitos de circulação de ideias, pessoas, mercadorias, capitais que começou em tempos muito remotos”, explicaram os professores José Ubaldo Bernardos Sanz, Mauro Hernández Benítez e Miguel Santamaría Lancho no seu manual de ‘História Económica’.

Os especialistas apontaram que o padrão-ouro e, sobretudo, as inovações técnicas, deram lugar à primeira era da globalização. Graças a essas melhorias, puderam ser construídas grandes linhas ferroviárias que primeiro ligavam países e, posteriormente, regiões inteiras. Por sua vez, a máquina a vapor e as melhorias na navegação permitiram o transporte de uma maior quantidade de mercadorias em períodos de tempo mais curtos.

– Guerras e protecionismo (1914-1945). Nesse período, ocorreram as duas Guerras Mundiais e a Revolução Russa, um período turbulento que reduziu os fluxos comerciais, alimentou o nacionalismo e travou a globalização. “O período entre guerras viu uma reversão dramática da globalização devido ao conflito internacional e ao aumento do protecionismo. Apesar da pressão da Sociedade das Nações por cooperação multilateral, o comércio regionalizou-se devido às barreiras comerciais e à quebra do padrão-ouro nos blocos monetários”, comentaram os especialistas do FMI.

– Taxas de câmbio fixas-Bretton Woods (1945-1980). A era de Bretton Woods (os acordos e resoluções da conferência monetária e financeira das Nações Unidas, realizada na cidade de Bretton Woods, em New Hampshire, para acabar com o protecionismo e tentar dar origem a uma política de comércio mais livre) viu o surgimento dos Estados Unidos como potência económica dominante com o dólar, posteriormente vinculado ao ouro, a sustentar um sistema com outras taxas de câmbio vinculadas ao próprio ‘greenback’.

– A grande liberalização (1980-2008). A era da liberalização trouxe a remoção gradual das barreiras comerciais na China e em outras grandes economias emergentes e uma cooperação económica internacional sem precedentes, incluindo a integração do antigo bloco soviético, o que permitiu maior crescimento do comércio. A Organização Mundial do Comércio (OMC), criada em 1995, tornou-se um novo superintendente multilateral de acordos comerciais, negociações e solução de controvérsias. Os fluxos de capital transfronteiriços aumentaram, aumentando a complexidade e a interconectividade do sistema financeiro global. No entanto, este período parece ter atingido o pico. Agora, a globalização parece ter estagnado, na melhor das hipóteses.

– ‘Slowbalization’ (2008-presente). A desaceleração da globalização que ocorreu após a crise financeira global foi caracterizada por uma quebra prolongada no ritmo de reformas e abertura comercial e no enfraquecimento do apoio político ao livre comércio devido às crescentes tensões geopolíticas. Até ao momento, mais do que uma redução da abertura comercial global, houve estagnação e, sobretudo, maior regionalização, ou seja, está a deixar de ser global para ser regional. O comércio perdeu peso entre diferentes regiões, mas ganha internamente (entre países europeus, América Latina, certas áreas da Ásia…).

Assim, está a surgir um modelo muito menos global e menos profundamente interconectado, mais focado no comércio entre atores regionais e aliados, e caracterizado por uma mudança de algumas potências económicas globais para múltiplos centros políticos e económicos, de acordo com uma nova análise da Morgan Stanley Research. “E embora os efeitos completos dessa ‘desaceleração’ levem anos para se manifestar, o processo já está em andamento. Países como México, Índia, Vietname e Turquia poderiam beneficiar, assim como vários sectores importantes, incluindo defesa e segurança cibernética”, avançaram especialistas.

Os especialistas garantiram que, ainda antes da Covid-19, uma combinação de tendências, como as alterações nas preferências dos consumidores, maior poder de compra nos mercados emergentes e o aparecimento de tarifas, dúvidas crescentes no investimento estrangeiro e maior sensibilidade à segurança nacional no comércio da tecnologia, começaram a ‘conspirar’ para desacelerar a globalização e até mesmo revertê-la.

A guerra entre Rússia e Ucrânia, assim como os seus efeitos nas cadeias produtivas, expuseram com mais clareza as ‘armadilhas’ ou perigos da interdependência económica, dando ainda mais força às discussões sobre a transferência da produção para locais mais próximos ou para economias aliadas ou muito próximas culturalmente. “Esperamos que essas forças levem Governos e empresas a investir substancialmente na realocação dentro dos países, realocação próxima e realocação para países parceiros das cadeias de valor”, referiu Michael Zezas, diretor de pesquisa de políticas públicas e estratégia municipal da Morgan Stanley Research.

Embora esta nova era esteja a aproximar-se, há muitas frentes abertas e todas elas parecem propor uma mudança no sistema globalizante que dominou nas últimas décadas. Essa parece ser uma mudança de paradigma que já está em curso e, no curto prazo, não há como voltar atrás.

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