Um drone russo foi avistado a sobrevoar o centro de Kiev antes de qualquer acionamento das sirenes de ataque aéreo, num episódio considerado inédito e preocupante pelas autoridades e por especialistas ucranianos. O alerta foi emitido na capital no passado dia 26 sem que houvesse avisos simultâneos nas regiões vizinhas de Kyiv ou Chernihiv, uma circunstância que levanta dúvidas sobre a eficácia dos atuais sistemas de deteção precoce, segundo o ‘EuromaidanPress’.
Testemunhas relataram que o drone já se encontrava sobre a cidade quando o alarme foi finalmente ativado. A ausência de alertas nas regiões adjacentes sugere que o aparelho poderá ter penetrado no espaço aéreo da capital sem ser detetado pelos mecanismos habituais de vigilância, um cenário que agrava as preocupações em matéria de defesa aérea.
O episódio surge num contexto de alertas feitos por Serhii Beskrestnov, especialista em guerra eletrónica e comunicações conhecido como ‘Flash’, que tem vindo a denunciar o uso por parte da Rússia de um novo tipo de drone, designado BM-35. De acordo com o especialista, este modelo já terá sido utilizado em ataques anteriores, incluindo um ataque à cidade de Dnipro, refere o ‘EuromaidanPress’.
Beskrestnov alerta que o BM-35 poderá recorrer ao sistema Starlink para controlo remoto, alterando de forma significativa o nível de ameaça. Segundo afirmou, quando os drones Shahed começarem a operar com apoio da Starlink, será apenas uma questão de tempo até essa capacidade se generalizar, possivelmente em dias e não em meses. O especialista considera tratar-se de “um grande problema” para a Ucrânia.
A utilização desse tipo de ligação tornaria os drones largamente resistentes às atuais formas de guerra eletrónica, uma vez que deixariam de depender de canais de navegação convencionais. Na prática, um drone de ataque passaria a funcionar de forma semelhante a um sistema de visão em primeira pessoa, podendo ser controlado diretamente por um operador a partir do território russo. Para já, não existem informações claras sobre como neutralizar eficazmente este tipo de ameaça.
O caráter excecional da situação foi também sublinhado pelo ativista cívico Taras Shamaida, que afirmou nunca ter assistido a um alerta aéreo motivado por um drone sobre Kiev sem qualquer aviso prévio nas regiões vizinhas. Para Shamaida, o caso pode indicar que o aparelho chegou ao centro da capital sem ser identificado pelos sistemas regionais de alerta antecipado.
Relatos semelhantes multiplicaram-se nas redes sociais, com utilizadores a afirmarem ter visto drones a sobrevoar Kiev sem qualquer aviso sonoro prévio, reforçando o clima de apreensão entre a população.
Especialistas admitem ainda que estes drones possam não servir apenas para ataques diretos, mas também para missões de reconhecimento antes de ofensivas de maior escala, incluindo ataques com mísseis. Este desenvolvimento ocorre num momento em que surgem declarações diplomáticas sobre eventuais negociações para pôr fim à guerra, incluindo comentários do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre uma alegada disposição russa para reduzir ataques e combates na Ucrânia.
Os primeiros relatos sobre o BM-35 remontam a 2025. O drone já terá sido utilizado contra povoações próximas da linha da frente e um míssil deste tipo atingiu anteriormente a Administração Militar Regional de Sumy. O aparelho distingue-se por uma asa em formato delta, transporta uma ogiva de peso desconhecido e integra pelo menos 41 componentes estrangeiros, incluindo peças provenientes dos Estados Unidos, da Suíça e de Taiwan, embora a maioria dos componentes tenha origem chinesa.
Para além dos danos físicos causados à infraestrutura civil, o uso destes drones tem um impacto psicológico significativo na população, ao prolongar os períodos de alerta e ao tornar os aparelhos mais difíceis de intercetar ou abater com os meios de guerra eletrónica atualmente disponíveis.




