Mais salários, menos rigidez e muitas mudanças: Como o Exército português se está a transformar para conquistar a Geração Z

O Exército português está a atravessar uma transformação profunda para atrair e reter jovens da Geração Z, nascidos entre 1996 e 2012, que já não se identificam com a rigidez da vida militar tradicional. A mudança envolve desde o fim das antigas casernas com beliches e treinos punitivos até à valorização da saúde mental, da flexibilidade e do equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

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Setembro 3, 2025
11:32

O Exército português está a atravessar uma transformação profunda para atrair e reter jovens da Geração Z, nascidos entre 1996 e 2012, que já não se identificam com a rigidez da vida militar tradicional. A mudança envolve desde o fim das antigas casernas com beliches e treinos punitivos até à valorização da saúde mental, da flexibilidade e do equilíbrio entre vida pessoal e profissional. “Esta geração não é pior do que as outras, é diferente”, afirmou o major-general Dias Martins, chefe da Direção de Recursos Humanos do Exército, em declarações à CNN Portugal.

O problema central está no recrutamento. Desde 2013 que os efetivos da base do Exército — soldados e cabos — têm vindo a cair drasticamente, atingindo em 2024 o mínimo histórico de 3.953, muito longe dos 11.651 registados em 2007. A demografia limitada do país, com apenas 1,09 milhão de jovens entre os 15 e os 24 anos (cerca de 10% da população, segundo o Eurostat), agrava ainda mais a situação. Para enfrentar esta crise, a instituição tem vindo a alterar profundamente as suas práticas, numa tentativa de se adaptar às expectativas de uma geração exigente e menos disponível para vínculos de longa duração.

A formação é uma das áreas onde a mudança é mais visível. A rigidez e os treinos punitivos foram substituídos por uma abordagem de “gradualidade”, que aposta na progressão em vez do choque físico e psicológico. “Hoje entendemos que ser áspero não contribui para a formação de um militar”, sublinhou Dias Martins, acrescentando que a exigência mantém-se, mas com métodos diferentes. A ideia de que todos os recrutas tinham de ser “máquinas de guerra” também foi abandonada, dando lugar a uma visão mais abrangente das funções militares, que vão desde investigadores e serralheiros até operadores de plataformas tecnológicas.

O acompanhamento psicológico é outro pilar. Estudos, como o da Deloitte, apontam que cerca de 40% da Geração Z sofre de stress elevado ou ansiedade. Em resposta, o Centro de Psicologia Aplicada do Exército criou o Programa de Promoção da Robustez Mental, assente no controlo emocional, no compromisso e na superação de desafios. Segundo os dados internos, cerca de 10% dos jovens que se voluntariam para o Exército procuram precisamente desenvolver essa robustez mental e psicológica.

A transformação estende-se às infraestruturas. Os antigos dormitórios coletivos estão a ser substituídos por quartos com capacidade máxima de quatro pessoas, equipados com edredons personalizados e acesso à internet. “Temos de terminar a visão ‘acasernada’ e olhar para eles como seres humanos, não como números”, defendeu o major-general. O uso do telemóvel, em vez de ser restringido, passou a ser integrado como ferramenta de comunicação e de recrutamento, com o Exército a apostar nas redes sociais e até em “influencers” internos, como o capelão Padre Guilherme.

Também as condições de vida foram alvo de medidas de valorização. Entre elas, apartamentos de renda económica, parcerias com autarquias para creches e recuperação de edifícios através do Plano de Recuperação e Resiliência, que permitirá alojar 600 militares. Ao mesmo tempo, foi criado o Quadro Permanente (QP) para Praças, permitindo ultrapassar o limite dos seis anos de contrato. Em 2024, o programa atraiu 700 candidaturas para apenas 110 vagas, sinal da procura crescente por estabilidade.

A valorização financeira da carreira tem sido outro fator decisivo. Só em 2024, os salários dos militares aumentaram em média 19%, mais 286 euros por mês, atingindo os 1.802 euros líquidos — um crescimento muito acima da média nacional. Nos últimos dois anos, os aumentos acumulados chegaram a 40%. “Posso ter os melhores equipamentos, mas se não cuidar das pessoas não me adianta nada. O cerne da questão é, inequivocamente, a questão das pessoas”, frisou Dias Martins.

Com estas mudanças, o Exército conseguiu inverter a tendência de queda no recrutamento em 2024 e estima crescer este ano entre 500 e 700 efetivos, com a meta de atingir 13.300 a 13.500 militares no ativo até 2025. Apesar disso, o debate sobre o eventual regresso do Serviço Militar Obrigatório continua presente, num contexto em que outros países europeus, como a Suécia e a Finlândia, já retomaram esse modelo. Para já, as Forças Armadas portuguesas apostam na adaptação cultural e social como estratégia para conquistar a confiança da nova geração.

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