Israel utilizou IA e drones contrabandeados para atacar o Irão. Plano preparado por espiões ao longo de anos

Israel surpreendeu o Irão na semana passada ao realizar uma das mais complexas operações militares e de espionagem da sua história recente, um plano preparado ao longo de anos e que teve como alicerces o recurso a inteligência artificial (IA), agentes infiltrados e drones armados introduzidos clandestinamente em território iraniano.

Pedro Gonçalves
Junho 18, 2025
18:36

Israel surpreendeu o Irão na semana passada ao realizar uma das mais complexas operações militares e de espionagem da sua história recente, um plano preparado ao longo de anos e que teve como alicerces o recurso a inteligência artificial (IA), agentes infiltrados e drones armados introduzidos clandestinamente em território iraniano. A ofensiva visou, sobretudo, desferir um duro golpe nas estruturas nucleares e militares do país, deixando o Irão com reduzida capacidade de retaliação.

De acordo com informações obtidas pela Euronews e pela Associated Press (AP), e baseadas em conversas com dez responsáveis atuais e antigos dos serviços secretos e das forças armadas israelitas — alguns dos quais falaram sob anonimato devido ao carácter sensível da operação —, o ataque foi meticulosamente planeado e executado com o apoio do Mossad e das forças armadas israelitas.

A operação, batizada de “Leão em Ascensão”, terá sido autorizada pelo primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, após aviso prévio ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Esta ocorreu na madrugada de sexta-feira, 13 de Junho de 2025, precisamente quando se preparava uma nova ronda de negociações sobre o programa nuclear iraniano em Omã.

Segundo fontes citadas pela AP, a Mossad e os militares trabalharam durante pelo menos três anos para criar as condições operacionais para o ataque. A estratégia incluiu o contrabando de drones de pequeno porte e armas de precisão para território iraniano, escondidos em veículos civis, os quais foram posicionados junto a sistemas iranianos de mísseis terra-ar e outras defesas estratégicas.

“O ataque foi o culminar de anos de trabalho do Mossad para enfraquecer o programa nuclear iraniano”, afirmou Sima Shine, antiga diretora de investigação do Mossad, atualmente no Instituto de Estudos de Segurança Nacional, em declarações à Euronews.

Inteligência artificial no centro da seleção dos alvos
Outro pilar do sucesso israelita foi o uso avançado de IA para processar grandes volumes de dados obtidos ao longo do tempo. Um dos oficiais envolvidos no planeamento revelou à AP que a tecnologia permitiu identificar e classificar alvos com rapidez, agrupando-os em categorias como liderança, forças militares, alvos civis e infraestruturas. O objetivo: eliminar ameaças diretamente ligadas à Guarda Revolucionária iraniana e ao seu programa de mísseis balísticos.

Entre os alvos eliminados destacam-se figuras de topo como o general Hossein Salami, comandante da Guarda Revolucionária, e o general Mohammed Bagheri, chefe do Estado-Maior das forças armadas iranianas. Pelo menos oito altos responsáveis da Guarda, incluindo o chefe do programa de mísseis, terão morrido num único ataque a um bunker subterrâneo.

Segundo a AP, esta operação seguiu um padrão já testado anteriormente por Israel, como o ciberataque que, nos anos 2000, destruiu centrífugas nucleares iranianas através do vírus Stuxnet, desenvolvido em parceria com os Estados Unidos.

Desmantelamento das defesas iranianas e destruição de meios estratégicos
O ataque começou com uma ofensiva de aviões de combate e drones armados, visando neutralizar rapidamente os sistemas de defesa aérea e de mísseis do Irão. Com o espaço aéreo praticamente livre, os bombardeamentos concentraram-se em instalações nucleares críticas e em veículos usados pelo Irão para o transporte e lançamento de mísseis.

Naysan Rafati, analista para o Irão no International Crisis Group, sublinhou que os ataques aéreos israelitas do passado já tinham evidenciado as fragilidades das defesas iranianas, algo que foi agora explorado em grande escala.

A estratégia recordou, segundo Sima Shine, a recente ação ucraniana em território russo, na qual drones de baixo custo conseguiram danificar parte significativa da frota estratégica de bombardeiros de Moscovo.

Por seu lado, o chefe da polícia iraniana, general Ahmadreza Radan, confirmou em entrevista à televisão estatal que foram descobertos vários veículos que transportavam mini-drones e outros dispositivos tácticos, lamentando que “alguns traidores” estivessem a tentar envolver as defesas aéreas iranianas em falsos alarmes.

Esta ofensiva não surgiu do nada. Ao longo das últimas décadas, o Mossad tem sido associado a ciberataques, assassinatos de cientistas nucleares e roubos de documentação classificada, como aconteceu em 2018, quando Israel obteve milhares de páginas de registos sobre o programa nuclear iraniano.

Yossi Kuperwasser, antigo general e ex-investigador da inteligência militar, recordou que esse arquivo revelou detalhes cruciais usados para planear operações posteriores. Já em 2024, Israel eliminou Ismail Haniyeh, um dos principais líderes do Hamas, com um ataque em Teerão.

Amir Avivi, general na reserva e presidente do Israel Defence and Security Forum, destacou que o sucesso da operação recente “é o resultado de anos de trabalho de inteligência dentro do Irão, com o estabelecimento de uma presença robusta no terreno”.

O Irão, que garante que o seu programa nuclear tem fins exclusivamente pacíficos, continua a afirmar-se alvo de uma guerra não declarada por parte de Israel, país que encara como inimigo e cuja destruição é apelada por alguns dos seus líderes mais radicais.

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