O Irão vai reunir-se com a Rússia e a China hoje para coordenar posições sobre o seu programa nuclear e evitar a reimposição de sanções, numa altura em que se aproxima uma nova ronda de negociações com os três países europeus signatários do acordo nuclear de 2015. A reunião trilateral ocorre antes dos encontros agendados para sexta-feira, em Istambul, entre o Irão e os chamados países E3 — França, Alemanha e Reino Unido.
A informação foi confirmada esta segunda-feira pelo porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, Esmail Baghaei, que afirmou que Teerão está “em coordenação contínua com Pequim e Moscovo” para tentar evitar o acionamento do mecanismo de retoma automática de sanções (conhecido como “snapback”) ou, pelo menos, “mitigar as suas consequências”.
O Acordo Nuclear de 2015 (Plano de Ação Conjunto Global) previa o levantamento de sanções contra o Irão em troca de limitações ao seu programa nuclear. No entanto, começou a desintegrar-se após a retirada unilateral dos Estados Unidos em 2018, durante a presidência de Donald Trump, que restabeleceu sanções severas contra Teerão. Desde então, o Irão tem vindo a ampliar gradualmente as suas atividades nucleares, enriquecendo urânio até 60% — a apenas um passo técnico do nível necessário para armamento nuclear (90%).
Os países europeus têm vindo a ameaçar, cada vez com mais insistência, acionar o mecanismo de “snapback” caso não haja progressos até ao final de agosto. Essa cláusula permite restaurar automaticamente todas as sanções anteriores da ONU, num cenário de incumprimento por parte do Irão.
Num discurso particularmente duro, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, declarou no domingo, numa carta dirigida ao secretário-geral da ONU, António Guterres, que França, Alemanha e Reino Unido “não têm qualquer legitimidade legal, política ou moral” para acionar esse mecanismo. Baghaei reiterou essa posição, afirmando que “foram os europeus que falharam em cumprir os seus compromissos no acordo” e classificou o comportamento dos E3 como “negligente”.
Baghaei foi também claro ao afastar qualquer hipótese de reatar conversações diretas com os Estados Unidos: “Não temos planos para retomar negociações com a América, nas atuais circunstâncias.”
As conversações desta sexta-feira serão as primeiras desde o cessar-fogo declarado após um violento conflito de 12 dias entre o Irão e Israel, em junho, durante o qual os EUA bombardearam três instalações nucleares iranianas. De acordo com dados oficiais, morreram cerca de 1.100 pessoas no Irão, incluindo dezenas de altos comandantes militares e cientistas nucleares, enquanto 28 civis israelitas também perderam a vida.
Apesar das acusações ocidentais, o Irão continua a defender que o seu programa nuclear tem fins exclusivamente pacíficos. “A agenda [das negociações] é clara: o levantamento das sanções e questões relacionadas com o programa nuclear pacífico do Irão”, afirmou Baghaei, durante a conferência de imprensa de segunda-feira.
A aliança entre Teerão e Moscovo também tem ganho visibilidade desde o início da guerra na Ucrânia, com o Irão a fornecer drones suicidas Shahed ao Kremlin, utilizados em ataques contra infraestruturas ucranianas. Esta cooperação estratégica poderá também influenciar o tom das conversações nucleares desta semana, numa altura em que os equilíbrios geopolíticos se tornam cada vez mais complexos.














