Sarin, gás mostarda e o terror invisível: eis o que as armas químicas fazem ao corpo humano

Com a entrada em vigor da Convenção sobre Armas Químicas em 1997, o fabrico e o armazenamento destes agentes passaram a ser ilegais. No entanto, a ameaça persiste, como mostraram os ataques na Síria com sarin e cloro, ou o envenenamento com Novichok no Reino Unido

Francisco Laranjeira

As manhãs nos comboios de Tóquio são normalmente silenciosas. Passageiros despertam lentamente, cada um concentrado no seu dia. Até que, em março de 1995, uma jovem sentou-se num carruagem e reparou num detalhe estranho: os passageiros à sua volta tossiam.

“Uh oh”, pensou. “Todos estão a ficar doentes.”

Quando o comboio chegou à próxima estação, muitos passageiros saíram — uma cena incomum naquele horário. Mas a jovem seguiu viagem, até que começou a notar uma luz estranha no interior da carruagem.

“O interior parecia extremamente brilhante,” explicou mais tarde, “ou pelo menos foi o que me pareceu na altura. Agora, ao recordar, era amarelo, ou uma pérola luminosa com tons de amarelo. Desmaiei antes por anemia, e foi como isso.”

A sensação de sufoco instalou-se. Tentou abrir as janelas, mas nada funcionava. Um cheiro estranho preenchia o ar. “Não era um odor pungente,” disse ela. “Era mais uma sensação de sufocamento.”

Continue a ler após a publicidade

À medida que os sintomas se agravavam, ninguém mostrava sinais de pânico. Um agente entrou noutra carruagem e saiu com um objeto coberto por jornal. A jovem percebeu então que não podia continuar. “Senti-me absolutamente horrível. Os meus olhos convulsionavam, tudo parecia amarelo.” Ao sair, a sua conclusão foi imediata: “Isto tem de ser sarin.” E estava certa.

O relato foi registado pelo escritor japonês Haruki Murakami e publicado no ‘IFLScience’, oferecendo um raro testemunho em primeira pessoa sobre o contacto com uma substância letal. Apesar de exposição mínima, o corpo humano sofre efeitos terríveis.

Armas químicas modernas: como funcionam

Continue a ler após a publicidade

Os agentes nervosos, como o sarin, interferem diretamente com o sistema nervoso, bloqueando a ação da enzima colinesterase e causando acumulação de acetilcolina nas sinapses. O resultado? Convulsões, dificuldades respiratórias e morte por asfixia em minutos nos casos mais graves.

Já os gases sufocantes, como o cloro ou o fosgénio, atacam o sistema respiratório. O cloro, denso e amarelo, provoca tosse e permite que as vítimas fujam. O fosgénio, mais insidioso, atravessa os pulmões e cria ácidos que destroem os alvéolos antes de qualquer sintoma se manifestar, levando a um afogamento interno silencioso.

“Logo que chega, sabes o que se passa — mas muitas vezes já é tarde demais para reagir”, recordou Martin Greener, oficial britânico que sobreviveu à Primeira Guerra Mundial.

Agentes vesicantes: o horror em contacto direto

O gás mostarda (sulphur mustard) e outros agentes vesicantes provocam queimaduras e bolhas na pele, olhos e vias respiratórias. Penetram rapidamente em áreas com glândulas sebáceas e sudoríparas, causando lesões profundas e dor intensa.

Continue a ler após a publicidade

Apesar da sua alta letalidade, a mortalidade direta é inferior à dos agentes nervosos, mas o sofrimento e as incapacidades que deixam são duradouros.

Com a entrada em vigor da Convenção sobre Armas Químicas em 1997, o fabrico e o armazenamento destes agentes passaram a ser ilegais. No entanto, a ameaça persiste, como mostraram os ataques na Síria com sarin e cloro, ou o envenenamento com Novichok no Reino Unido.

A lição permanece: vigilância constante

O ‘IFLScience’ sublinha que, apesar das normas internacionais, a existência contínua destas armas não pode ser ignorada. Desde Tóquio até à Síria e Salisbury, a história recente prova que estas substâncias continuam a ser utilizadas, colocando em risco civis e militares.

“A experiência da jovem no metropolitano é um lembrete de que a exposição mínima pode ser aterradora e mortal,” escreve o site. “O reconhecimento do perigo químico é vital para proteger pessoas e ecossistemas em todo o mundo.”

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.