Adoptando um aspecto agressivo na actualização de 2015, o Honda Civic chamou a atenção com a sua pintura branca de efeito perlado. De tal forma que num parque de estacionamento dos arredores de Lisboa um jovem procurou saber se este já era o Civic com “motor de 300 cv”. Obviamente, referia-se ao futuro Type R, que tem chegada prevista para o final do Verão e que faz gala do novo motor 2.0 VTEC turbo para produzir 310 cv de potência máxima. Uma combinação que agrega o carácter mais rotativo dos blocos VTEC à sobrealimentação. Os puristas podem não achar muita piada, mas as mudanças tornam-se obrigatórias por motivos ecológicos.
Mas não, este Civic não é um Type R. A resposta pareceu desiludir parcialmente o tal jovem, que desviou de imediato o olhar para as jantes, mais concretamente para o sistema de travagem, no qual a ausência das maxilas de travão vermelhas e de discos de grandes dimensões pareceu colocar um ponto final na dúvida. Ainda assim, não se foi embora sem dizer que “está com um ‘look’ agressivo!”.
Percebe-se, porém, a intenção da marca nipónica com esta actualização de 2015 (a segunda para a nona geração deste modelo desde o seu lançamento em 2012): ‘colar’ o Civic ‘base’ à imagem do desportivo, aplicando uma série de elementos diferenciadores nesta versão Sport, como o pára-choques dianteiro com aberturas mais arrojadas, saias laterais (que não o são bem, pois estão montadas nas portas…) e o spoiler para a tampa da bagageira, que conferem, de facto, um visual bem apelativo.
Depois, claro, existem traços em comum com a versão não Sport, também renovada: a grelha, os novos faróis com assinatura LED especifica, pára-choques traseiro e o desenho dos farolins traseiros. No interior, não se contam grandes alterações em termos de desenho, embora existam novos materiais, forro do tejadilho em preto e elementos cromados na consola central. Além do sistema de infoentretenimento Honda Connect, que abordaremos mais em detalhe.
Diesel voluntarioso
Se o visual remete para um universo mais desportivo, a verdade é que não se aplicaram melhorias ao nível técnico para transformar a gama Sport do Civic numa espécie de Type S, um patamar intermédio entre o modelo base e o Type R. O nível Sport está disponível para os motores 1.8 i-VTEC a gasolina e para o 1.6 i-DTEC, sendo este último o escolhido para a versão ensaiada.
Pioneiro da linha Earth Dreams Technology, esta motorização Diesel debita 120 cv, mantendo-se como um dos melhores com estas características no mercado. Lesto a responder às solicitações do condutor e bastante elástico no seu funcionamento, o 1.6 i-DTEC revela-se eficaz a acelerar, parecendo até ter um pouco mais do que a potência anunciada. A sua elasticidade e suavidade são igualmente postas à prova nas recuperações, voltando a mostrar-se em muito boa forma, com retomas rápidas e sem necessidade de recurso frequente à caixa de seis velocidades, a qual se destaca pelo manuseamento simples e eficaz. No final de contas, revela-se como um bloco bastante ‘redondo’ em termos de disponibilização de potência, o que se traduz numa condução bastante agradável em qualquer circunstância, desde a ida ao supermercado à viagem pela estrada de montanha.
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Mas as prestações não são a única característica que sobressai no motor Diesel da Honda – os consumos são outro elemento em destaque. De facto, ao longo de todo o ensaio, o Civic raramente excedeu a casa dos 4,0 l/100 km, terminando com um registo de 4,8 l/100 km, impressionante para um modelo de 120 cv e com peso ligeiramente acima dos 1300 kg.
A ajudar estará certamente a tecnologia start-stop que, não sendo tão rápida e suave no seu funcionamento como a dos modelos do grupo PSA (que são uma referência nesse âmbito), mantém os consumos sob controlo em cidade.
Em termos dinâmicos, o renovado Civic privilegia o conforto de rolamento em detrimento da dinâmica pura, pelo que não se assume como um ‘hot-hatch’. Revela-se, sim, bastante seguro e estável em curva, com direcção precisa (ligeiramente alterada), permitindo a adopção de andamentos vivos em curva e mostrando, igualmente, refinamento em mau piso. Em termos dinâmicos, beneficia ainda de melhoramentos nos sistemas de Assistência de Comportamento (Agile Handling Assist) e Controlo de Estabilidade (VSA). O primeiro trava ligeiramente as rodas interiores em curva e, numa segunda fase, as rodas exteriores quando o volante retorna ao centro, mantendo a estabilidade do Civic. Actuando em conjunto com o VSA, acentua a tracção disponível em cada momento e, em especial, em piso escorregadio. Não obstante, se a imagem promete outras veleidades, o pendor deste Honda está no conforto.
Versatilidade a toda a prova
Com três ecrãs disponíveis no habitáculo (painel de instrumentos, parte superior do tablier e consola central), a interacção parece confusa de início, sendo necessários alguns minutos de habituação para lidar com todas as funcionalidades. Talvez a única queixa digna de registo assente no excessivo número de menus presentes no sistema do computador de bordo.
A posição de condução não é a mais interessante, já que o condutor vai sentado em posição elevada, afastando-se decididamente das características dos antigos Civic EG e EK da década de 1990. No mesmo âmbito, a visibilidade para trás é mediana (faz lembrar a do CRX original), sendo que o pior é mesmo a visão traseira de três quartos. Neste sentido, a câmara traseira oferece uma valiosa ajuda nas manobras.
Já a habitabilidade merece nota francamente positiva, com bastante espaço disponível nos lugares da frente e nos de trás, aqui destacando-se pelo espaço para as pernas, mas também deixando boa impressão no que diz respeito à largura e à altura. De tal forma que três adultos podem viajar de forma desafogada nos bancos traseiros, até porque o túnel central é praticamente inexistente, não afectando dessa forma a colocação das pernas do passageiro no banco central traseiro. Versatilidade também é imagem de marca do Civic: a mala oferece ‘cavernosos’ 477 litros de capacidade, contando já com o espaço de arrumação que geralmente costuma ser utilizado para albergar o pneu suplente e que aqui permite arrumar mais objectos.
Com o rebatimento das costas dos bancos traseiros permite obter um plano de carga liso e um total de 1378 litros, mas também há que contar com o sistema de ‘bancos mágicos’. Por outro lado, o som do combustível a ‘navegar’ no depósito, colocado sob os bancos dianteiros, é bastante audível no habitáculo.
Choque tecnológico
O renovado Civic surge com um elevado ênfase nas tecnologias de segurança, com travagem activa em cidade (travando em emergência em velocidades até aos 30 km/h) e a já referida câmara traseira de série. Todavia, o valioso pacote de segurança adiciona o alerta de saída da faixa de rodagem, alerta de veículos no ângulo morto, alerta de colisão dianteira, leitura dos sinais de trânsito e monitorização do tráfego cruzado na traseira, tendo por objectivo a mitigação de eventuais descuidos e acidentes no dia-a-dia.
Estreia total é a do sistema Honda Connect, assente num ecrã de 7” e no sistema operativo Android (4.0.4, denominado Ice Cream Sandwich) – idêntico, de certa forma, ao que é usado nos telemóveis. Aliás, essa familiaridade torna a utilização do sistema bem mais intuitiva, contando com sistema de navegação (Garmin), conexão aos smartphones por Bluetooth e MirrorLink, acesso à Internet e a outras aplicações, algumas das quais criadas pela própria Honda. O processador de última geração Tegra da NVIDIA providencia um funcionamento rápido do sistema. Único ponto verdadeiramente alterável é a ausência de um botão rotativo para o volume: as teclas para aumentar e baixar o volume são pouco intuitivas.
Veredicto
Por baixo da sua ‘pele’ o Honda Civic não mudou por aí além, mas no exterior as alterações aplicadas tornaram o compacto familiar bem mais apelativo, destacando-se das demais propostas do mercado. Bem equipado, versátil e com motor Diesel tremendamente eficaz e poupado, o Civic assume-se como uma alternativa bastante válida no segmento C. No nível Sport, contudo, não conte com comportamento desportivo: é seguro e interessante de conduzir, não há dúvidas, mas a pele do lobo é só mesmo para impressionar. O que também não se pode dizer que seja mau.
Mais relevante é o preço final: incluindo incentivo de 2215 euros e de apoio à retoma de 1500 euros, o Civic 1.6 i-DTEC Sport fica-se pelos 23.705 euros, o que o torna numa proposta bastante apelativa.
FICHA TÉCNICA
| Motor | |
| Tipo | 4 cilindros em linha, long., inj. common-rail, turbo |
| Cilindrada | 1597 |
| Diâmetro x curso (mm) | 76,0×88,0 |
| Taxa compressão | 16,0:1 |
| Potência máxima (cv/rpm) | 120/4000 |
| Binário máximo (Nm/rpm) | 300/2000 |
| Transmissão e direcção | |
| Tracção | Dianteira |
| Caixa | Manual de 6 velocidades |
| Direcção | Pinhão e cremalheira, com assistência eléctrica |
| Dimensões e pesos | |
| Comp./largura/altura (mm) | 4370/1770/1470 |
| Distância entre eixos (mm) | 2595 |
| Largura de vias fte/tras. (mm) | 1530/1530 |
| Travões fr/tr. | Discos ventilados/discos |
| Peso (kg) | 1307 |
| Capacidade da bagageira (l) | 477-1210 |
| Depósito de combustível (l) | 50 |
| Pneus série | 235/55 R17 |
| Prestações e consumos | |
| Aceleração 0-100 km/h (s) | 10,5 |
| Velocidade máxima (km/h) | 207 |
| Extra-urb./urbano/misto (l/100 km) | 3,5/4,1/3,7 |
| Emissões de CO2 (g/km) | 98 |
| Preço promocional (Euros) | 23.705 |
| Preço sem campanha (Euros) | 27.830 |
Equipamento de série
Airbag para condutor e passageiro (desligável)
Airbags laterais dianteiros
Airbags de cortina
Controlo electrónico de estabilidade
Sistema de Travagem Activa em Cidade (CTBA – City-Brake Active system)
Sistema Avisador de Saída da Faixa de Rodagem (LDW – Lane Departure Warning) – Pacote de segurança avançada
Sistema de Reconhecimento de Sinalização de Trânsito (TSR – Traffic Sign Recognition) – Pacote de segurança avançada
Sistema de Informação de Ângulo Morto (BSI – Blind Spot Information) – Pacote de segurança avançada
Monitor de Trânsito Lateral (CTM – Cross Traffic Monitor) – Pacote de segurança avançada
Suspensão traseira de amortecimento pilotado
Cintos dianteiros com pré-tensores e limitadores de esforço
Fixações Isofix
Assistente aos arranques em subida (HSA)
Ar condicionado automático bizona
Computador de bordo
Bancos do condutor com regulação em altura
Alarme
Banco rebatível 60/40
Volante em pele regulável em altura+profundidade
Volante multifunções
Direcção com assistência electrohidráulica variável
Rádio com leitor de CD+8 altifalantes+entradas USB/Aux
Mãos-livres Bluetooth
Sistema de navegação Garmin
Vidros eléctricos FR/TR
Retrovisores exteriores eléctricos+aquecidos+rebatimento eléctrico
Retrovisor interior electrocromático
Cruise-control+limitador de velocidade
Faróis dianteiros em LED
Assistente de máximos
Faróis de nevoeiro com luzes de curva
Jantes de liga leve de 17″
Sistema de monitorização da pressão dos pneus
Kit anti-furo
Caixa de primeiros socorros
Sensor de luz/chuva
Câmara traseira de auxílio ao estacionamento















