Estudo revela contaminação generalizada de vinhos europeus com ‘químicos eternos’

Um novo estudo revelou que vinhos produzidos em dez países da União Europeia estão contaminados com ácidos fluorados persistentes, conhecidos como “químicos eternos”, lançando um alerta preocupante sobre a presença de substâncias tóxicas na cadeia alimentar europeia. Nem uma única amostra analisada deu resultado limpo.

Pedro Gonçalves
Abril 24, 2025
13:20

Um novo estudo revelou que vinhos produzidos em dez países da União Europeia estão contaminados com ácidos fluorados persistentes, conhecidos como “químicos eternos”, lançando um alerta preocupante sobre a presença de substâncias tóxicas na cadeia alimentar europeia. Nem uma única amostra analisada deu resultado limpo.

A investigação, divulgada esta quarta-feira pela organização Pesticide Action Network (PAN) Europe, detetou níveis significativos de ácido trifluoroacético (TFA) em 49 vinhos, incluindo rótulos convencionais e biológicos. O TFA é um subproduto dos PFAS (substâncias per- e polifluoroalquiladas), uma família de compostos industriais altamente persistentes no ambiente.

Segundo o relatório, intitulado Message from the Bottle, “nenhum dos vinhos analisados, provenientes de países como Áustria, Espanha, França ou Itália, estava isento de contaminação”. Em algumas garrafas, os níveis de TFA superavam em 100 vezes os valores normalmente registados na água potável. Em certos casos, os níveis chegaram aos 320 microgramas por litro — mais de 3.000 vezes o limite legal imposto pela União Europeia para resíduos de pesticidas em águas subterrâneas.

“Este é um sinal de alerta que não pode ser ignorado”, afirmou Helmut Burtscher-Schaden, da ONG austríaca Global 2000, responsável pela investigação. “A acumulação massiva de TFA nas plantas indica que estamos provavelmente a ingerir muito mais deste químico do que se pensava.”

Vinhas europeias sob pressão
A produção vinícola é, de acordo com o relatório, um dos sectores agrícolas com maior consumo de pesticidas na Europa — especialmente fungicidas. A elevada vulnerabilidade das uvas a doenças fúngicas leva a pulverizações frequentes durante toda a estação de crescimento, muitas vezes com produtos que contêm PFAS.

As análises revelaram ainda que o TFA não estava presente em vinhos anteriores a 1988, mas que a contaminação aumentou progressivamente nas últimas décadas, coincidindo com a intensificação do uso de pesticidas à base de PFAS e de novos refrigerantes fluorados.

Embora os vinhos biológicos apresentem concentrações mais baixas de TFA, nenhum estava livre de contaminação, o que mostra a ubiquidade do problema. A Áustria destacou-se com os valores mais elevados, mas os investigadores alertam que a situação se verifica em todo o continente.

“Este não é um problema local — é global”, avisou Michael Müller, professor de química farmacêutica na Universidade de Friburgo, que realizou um estudo independente com conclusões semelhantes. “Já não existem vinhos não contaminados. Mesmo a agricultura biológica não consegue proteger-se totalmente, porque o TFA está agora disseminado em todo o ambiente.”

A ameaça dos PFAS e a urgência de regulação
Os PFAS são compostos fluorados amplamente usados desde meados do século XX, em produtos como espumas extintoras, utensílios antiaderentes, têxteis impermeáveis e pesticidas. Embora valorizados pela sua durabilidade, os PFAS são extremamente difíceis de degradar, acumulando-se no ambiente e nos organismos vivos, com riscos comprovados de cancro, danos hepáticos e efeitos na reprodução.

Até há pouco tempo, o TFA era considerado um composto relativamente inócuo. No entanto, um estudo de 2021, financiado pela indústria mas conduzido ao abrigo do regulamento REACH da UE, associou a exposição ao TFA a malformações graves em fetos de coelho. Esta evidência levou os reguladores europeus a propor a sua classificação como “tóxico para a reprodução”.

“Tudo isto reforça a necessidade urgente de ação”, defendeu Salomé Roynel, responsável de políticas públicas da PAN Europe. “De acordo com as regras europeias, metabolitos com efeitos sobre a saúde reprodutiva não devem estar presentes em águas subterrâneas acima dos 0,1 microgramas por litro — um limite que o TFA ultrapassa regularmente, tanto na água como agora nos alimentos.”

Decisões políticas à vista
O relatório surge num momento politicamente sensível. Dentro de semanas, os Estados-membros da UE deverão votar sobre a proibição do flutolanil, um pesticida PFAS identificado como um dos principais emissores de TFA. Para os defensores da saúde pública e ambiental, essa votação será um teste à seriedade com que os decisores políticos encaram esta ameaça.

“A votação sobre o flutolanil é apenas o início. O verdadeiro desafio é banir toda a categoria de pesticidas PFAS da agricultura europeia”, insistiu Roynel.

Apesar da provável resistência da indústria — que alega que os PFAS continuam a ser essenciais para a proteção das culturas —, o professor Müller rejeita esse argumento.

“Existem alternativas. Dizer que estes químicos são indispensáveis simplesmente não é verdade”, declarou.

Contaminação para as próximas gerações
O relatório lança nova pressão sobre os debates em curso sobre restrições mais amplas aos PFAS no espaço europeu. Para os autores do estudo, quanto mais se adiar a eliminação destes compostos, mais se agrava a contaminação dos recursos alimentares e hídricos.

“Cada ano de inação fixa os danos para as gerações futuras”, alertou Burtscher-Schaden.

Confrontada com os resultados do estudo, a Comissão Europeia recusou fazer comentários.

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