O Governo neerlandês enfrentou uma crise política sem precedentes após a renúncia do ministro dos Negócios Estrangeiros, Caspar Veldkamp, provocando a saída em bloco do partido Nieuw Sociaal Contract (NSC). O episódio reflete uma crescente tensão europeia em relação à ofensiva militar israelita em Gaza e às pressões sobre os governos aliados de Netanyahu.
Na passada sexta-feira, Caspar Veldkamp decidiu submeter a sua carta de demissão após semanas de tentativas falhadas de convencer o Executivo a endurecer a posição da Holanda face a Israel. O ministro, diplomata de carreira e ex-embaixador em Tel Aviv, afirmou sentir-se “limitado” para sancionar Tel Aviv, algo que considerava “necessário”. Horas depois, quatro outros ministros e quatro secretários de Estado do NSC seguiram-lhe os passos, deixando o primeiro-ministro Dick Schoof com um gabinete reduzido e fragilizado.
Um governo em fragmentos
O colapso do NSC deixou o Executivo sustentado apenas pelos liberais do Partido Popular pela Liberdade e Democracia (VVD) e pelo Movimento Campesino-Cidadão (BBB), detendo juntos apenas 32 dos 150 assentos do Parlamento. Schoof descreveu a situação como rompkabinetje, um governo de restos com ministros acumulando múltiplas pastas. Ruben Brekelmans, da Defesa, assumiu também o Ministério dos Negócios Estrangeiros, enquanto Mona Keijzer passou a acumular Habitação, Migração e Assuntos Sociais. “Nunca um partido inteiro havia abandonado um gabinete em funções”, sublinhou o constitucionalista Wim Voermans.
O Congresso neerlandês reúne-se esta quarta-feira para tentar ultrapassar a crise. O partido progressista Democratas 66 (D66) propõe a formação de um gabinete de unidade nacional com administradores experientes até às eleições de 29 de outubro. Por outro lado, VVD e BBB defendem repartir entre si as nove pastas deixadas pelo NSC, estratégia já aplicada em junho, quando a extrema-direita de Geert Wilders provocou instabilidade similar. A oposição alerta que esta solução deixa o Executivo nas mãos de uma minoria ínfima e exige medidas mais abrangentes.
A crise na Holanda insere-se num cenário europeu mais amplo, em que países historicamente aliados de Israel começam a rever posições. Na Alemanha, o Governo anunciou que não continuará a fornecer armas passíveis de serem usadas em Gaza, enquanto na Bélgica o ministro dos Negócios Estrangeiros, Maxime Prévot, ameaça bloquear a agenda governamental se não forem tomadas medidas contra Israel e reconhecido o Estado palestino. Prévot justifica: “Como guardião da nossa política exterior não posso permitir que sigamos arrastando os pés”.
O primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu mantém a ofensiva em Gaza apesar de crescente isolamento internacional e de uma ordem de detenção emitida pela Corte Penal Internacional por crimes de guerra e de lesa-humanidade. Governos como os de França, Reino Unido, Canadá e Austrália ameaçam reconhecer a Palestina caso Israel não cesse as operações militares e permita a entrada de ajuda humanitária. A imagem de Netanyahu degrada-se na Europa, mas o político continua blindado pelo apoio dos EUA e de governos afins, mantendo a ofensiva militar em curso.
O caso holandês exemplifica a erosão do apoio europeu a Israel: decisões antes impensáveis, como sancionar Tel Aviv ou reconhecer a Palestina, dividem coalizões e provocam crises de governo. A demissão de Veldkamp, antigo aliado de Israel, é simbólica de uma mudança de paradigma, mostrando que o “amigo de Israel” pode tornar-se crítico quando as ações militares ultrapassam limites considerados aceitáveis por políticos europeus.














