Narva: a pequena cidade onde a NATO enfrenta Putin e a Europa desafia a China

Segundo a revista americana ‘Newsweek’, Narva tornou-se um símbolo inesperadamente concentrado das duas grandes dependências estratégicas da Europa: a segurança garantida pelos soldados americanos e as cadeias de abastecimento dominadas pela China

Francisco Laranjeira
Fevereiro 11, 2026
14:49

Duas fortalezas medievais encaram-se nas margens do rio Narva, separando a Estónia da Rússia. No meio, a chamada “Ponte da Amizade”, construída durante a Guerra Fria, está hoje protegida por arame farpado e barreiras antitanque de betão conhecidas como “dentes de dragão”. “O nome é meio irónico”, afirmou à ‘AFP’ o chefe da fronteira regional, Eerik Purgel.

Segundo a revista americana ‘Newsweek’, Narva tornou-se um símbolo inesperadamente concentrado das duas grandes dependências estratégicas da Europa: a segurança garantida pelos soldados americanos e as cadeias de abastecimento dominadas pela China.

À entrada estónia da ponte, a bandeira da NATO tremula ao lado das bandeiras da Estónia e da União Europeia. Mas o ambiente é descrito como “sombrio”, numa altura em que a guerra em larga escala da Rússia na Ucrânia se aproxima do quarto aniversário. “Aqui, na fronteira da Europa, a guerra parece diferente… Vemos a Rússia do outro lado da fronteira todos os dias”, afirmou a presidente da câmara de Narva, Katri Raik.

A fábrica que expõe a dependência da China

Em setembro passado, a Comissão Europeia celebrou em Narva a abertura daquilo que classificou como a maior fábrica de ímanes de terras raras da Europa. A unidade destina-se a produzir ímanes permanentes para veículos elétricos, turbinas eólicas e microeletrónica.

No entanto, como admite a própria Comissão, mais de 90% dos ímanes atualmente importados pela União Europeia provêm da China. Segundo a ‘Newsweek’, Bruxelas reconhece também que a UE não produz elementos de terras raras por si própria e que 98% da procura total destes ímanes é satisfeita por importações chinesas.

Os ímanes permanentes de terras raras são essenciais para motores elétricos e geradores, mas também desempenham um papel crítico na indústria de defesa moderna. Um relatório de 2024 do Government Accountability Office dos Estados Unidos sublinha que estes materiais são indispensáveis em vários sistemas de armas e que interrupções no fornecimento representam um elevado potencial de danos para a segurança nacional.

Narva: ponto sensível no flanco leste da NATO

Com cerca de 50 mil habitantes, Narva é maioritariamente de língua russa. Aproximadamente metade dos residentes são cidadãos estónios, um terço possui cidadania russa e cerca de 7.000 são apátridas. Cidadãos russos e apátridas não têm direito de voto nas eleições locais.

Segundo a ‘Newsweek’, alguns receiam que Moscovo possa usar esta realidade demográfica como pretexto para alegar que minorias russas estão ameaçadas — uma narrativa semelhante à utilizada no Donbass.

Um cientista político alemão, Carlo Masala, afirmou à ‘AFP’ que a exclusão de cidadãos russos do voto local pode tornar-se um argumento para a propaganda russa, alimentando a ideia de que estas populações necessitam de “proteção”.

Pressão americana e nova doutrina europeia

A cidade estónia surge como pano de fundo simbólico para a Conferência de Segurança de Munique, onde líderes de mais de 100 países discutem o futuro da segurança internacional. O relatório anual do encontro alerta que o mundo entrou num período de “política destrutiva”.

Sob pressão dos Estados Unidos — especialmente do presidente Donald Trump — a Europa comprometeu-se a aumentar significativamente os seus gastos em Defesa. A NATO estabeleceu como meta que os Estados-membros invistam 5% do PIB anual em defesa e áreas relacionadas até 2035, acima do anterior objetivo de 2%.

Na visão defendida por analistas conservadores americanos, os Estados Unidos não podem sustentar simultaneamente múltiplos conflitos e devem concentrar-se sobretudo na dissuasão da China.

Zona cinzenta e guerra híbrida

As tensões na região não se limitam a discursos estratégicos. A Estónia denuncia violações do seu espaço aéreo por aeronaves russas desde 2014, remoção de boias de navegação no rio Narva por guardas de fronteira russos e interferências no sistema GPS que afetaram voos civis.

Segundo dados citados pela ‘Newsweek’, a Estónia afirmou que o bloqueio de GPS russo provocou prejuízos superiores a 500.000 euros (600.000 dólares) num período de três meses em 2025. Também foram registados danos em cabos submarinos de energia e telecomunicações entre a Finlândia e a Estónia, com suspeitas envolvendo um navio-tanque ligado à Rússia.

Autoridades estónias alegam ainda tentativas de sabotagem, vandalismo e operações de influência atribuídas aos serviços russos.

Um ponto de estrangulamento estratégico

A matemática militar ilustra o desequilíbrio: a Rússia estima ter uma força ativa autorizada de 1,5 milhões de soldados, enquanto as forças não permanentes da Estónia totalizam cerca de 43.000 militares, mesmo com o país a aproximar-se da meta de 5% do PIB em defesa.

Segundo a ‘Newsweek’, Narva deixou de ser apenas uma cidade fronteiriça remota. Tornou-se um ponto de estrangulamento onde se cruzam as ambições industriais e de segurança da Europa. Uma eventual crise ali poderia não só testar a credibilidade da NATO, como também expor a vulnerabilidade da União Europeia numa cadeia de abastecimento altamente dependente de um rival estratégico.

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