Não dar ponto sem nó

Opinião de Carlos Lourenço, Professor do ISEG

Executive Digest

Por Carlos Lourenço, Professor do ISEG

Em 1803, surpreendidos com uma oferta generosa de Napoleão, que necessitava de financiamento urgente para a guerra com o Reino Unido, os Estados Unidos da América (EUA) acabaram por comprar, não apenas Nova Orleães, que permitia controlar a navegação no rio Mississippi, mas um território de mais de 2 milhões de quilómetros quadrados, onde se localizam hoje outros 15 estados, do Montana ao Louisiana. E, de um dia para o outro, a recém-nascida nação americana viu duplicado o seu tamanho. Os EUA compraram ainda, em 1853, ao México, uma parte do sul do estado do Arizona (e do Novo México), em 1867, ao Império Russo, o Alaska, e, em 1917, à Dinamarca, as Ilhas Virgens.



A primazia do plano estritamente económico e das transacções comerciais, assente na constatação de que há (quase) sempre um preço a que um povo se vende, e à sua alma, não é, portanto, uma novidade na política externa dos EUA no arco mais alargado da história moderna e contemporânea.

Como se pode então entender a condução das negociações — o vaivém diplomático na opulenta Riad, ora com dirigentes russos ora com dirigentes ucranianos — e um eventual acordo de paz entre a Rússia e a Ucrânia, que tendo como efeito positivo imediato o fim das mortes entre militares e civis de ambos os lados e da destruição, não pode senão ser visto também como uma vitória do regime russo, com tudo o que isso acarreta?

Talvez a resposta esteja numa só palavra: China. Porque uma maior proximidade dos EUA à Rússia, percebida ou real (na forma de eventuais acordos económicos e de cooperação), poderá ter como objetivo enfraquecer a ligação entre a China e a Rússia.

É que para muitos nos EUA, a começar por Donald Trump, a China (e a sua crescente ligação à Rússia) é a maior ameaça ao poder económico hegemónico dos EUA no mundo, exercido praticamente durante todo o século XX e até hoje, volvido que está um quarto do século XXI.

Ascendendo a 30 milhões de milhões de dólares segundo o FMI para 2025, o PIB nominal dos EUA é o maior do mundo e ultrapassa o chinês em cerca de 10 milhões de milhões de dólares (e é aproximadamente igual à soma do PIB das 10 maiores economias seguintes). Segundo o World Factbook da CIA, em termos de PIB per capita em paridade do poder de compra, os EUA, em 2023, estavam no top 10, estando a China mais de 50 posições abaixo.

Com gastos em defesa que ascendem a mais de 900 mil milhões de dólares, cerca de 1.3 milhões de activos nas forças armadas, 14 500 aeronaves e 440 embarcações militares, os EUA têm também o maior poder bélico do mundo, seguidos de perto, se tomados no seu conjunto, pela Rússia e pela China.

Internamente, contudo, muitos norte-americanos gostariam de reaver a grandeza do país que entretanto, aos seus olhos, se perdeu: cidades destruídas pela deslocalização da indústria (nomeadamente para a China), desemprego, custos de saúde insuportáveis quando o azar bate à porta, o flagelo da adição às drogas importadas ilegalmente e uma desigualdade crescente que corrói a democracia.

Assim, talvez a grande (e arriscada) estratégia da Adminstração Trump para fazer com que a América seja “grande outra vez” internamente, aos olhos do norte-americano comum, passe por garantir que no plano externo a América continua sem ameaças, nomeadamente da China, e muito menos ligada à Rússia — e possa assim ser Great As It Has Been In The Last 100 Years or So.

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